O MAIOR ERRO DA ERA PT NO SETOR DA CULTURA

"NOVA MPB"? Nomes do brega-popularesco, como os "sertanejos universitários" Zé Neto & Cristiano, não possuem a contundência artística dos autênticos emepebistas.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos fatores menos discutidos para a decadência que levou ao fim da Era PT no Governo Federal é a abordagem cultural, que nem de longe representou uma ruptura com os paradigmas conservadores trazidos desde o coronelismo regional, que financiou os primeiros ídolos cafonas (como Waldick Soriano), até o das elites intelectuais originalmente associadas a Fernando Henrique Cardoso.

A influência de uma elite formada pelos filões acadêmicos comandada por futuros "caciques" do PSDB, como FHC, José Serra, Francisco Weffort e Sérgio Paulo Rouanet, que viam a cultura popular como um processo subordinado ao mercado, foi prejudicial na medida em que se anularam os debates em torno da cultura popular no país.

Isso se deu a partir da ideia equivocada, difundida por essa elite usp-tucana, de que o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, em sua breve experiência entre 1961 e 1964, não era mais do que uma "fábrica de ideologias" e uma "partidarização", nos moldes comunistas, das raízes culturais brasileiras.

Sob o pretexto de "combater o preconceito", criaram-se preconceitos muito, muito cruéis. Debater os problemas culturais passou a ser vista com o pior dos preconceitos, e, quando muito, só se discutia os investimentos à cultura brasileira, quando o processo se tornou tarde demais.

Intelectuais aprendizes da escola usp-tucana influente em todo o Brasil, como Hermano Vianna e  Ronaldo Lemos, no Rio de Janeiro, Pedro Alexandre Sanches em São Paulo, Eugênio Arantes Raggi em Belo Horizonte, Milton Moura e o falecido Roberto Albergaria, em Salvador, e Denize Garcia, em Porto Alegre, difundiram paradigmas culturais que apontaram apenas abordagens espetacularizadas e caricaturais das classes populares.

Havia uma utopia de que a simples transformação dos fenômenos popularescos da chamada "cultura de massa", na música ou no comportamento, em expressões do folclore do futuro, iria salvar a cultura popular e traduzir perspectivas progressistas para as classes populares. Foi um erro de proporções gigantescas, que prejudicou a cultura brasileira.

LEI ROUANET

O caso da Lei Rouanet, criada por Sérgio Paulo Rouanet durante o governo de Fernando Collor, tornou-se um instrumento de pretenso fortalecimento da cultura popular durante os dois governos Lula e os governos de Dilma Rousseff, afastada do poder hoje de manhã pelo processo de impeachment do Senado Federal.

A utopia da valorização igualitária do comercialismo cultural ao lado de expressões de valor artístico-cultural autênticos, sob a desculpa de "não haver discriminação de qualquer espécie", criou distorções muito graves na expressão cultural brasileira.

O mercado acabou prevalecendo e a perspectiva "sem preconceitos" fez com que intérpretes inexpressivos da música brasileira, como o grupo carioca Tchakabum (perdido em fazer um arremedo de axé-music, que já é um ritmo meramente comercial), ou franquias de peças da Disney, recebessem generosas verbas da Lei Rouanet.

A Música Popular Brasileira autêntica, que não depende de plateias lotadas nem de execuções maciças em rádio e TV, saiu mais vítima de preconceito do que os brega-popularescos que choravam pelo "fim do preconceito".

Nas mídias sociais, quem sofria discriminação eram gente como Chico Buarque, Turíbio Santos, João Gilberto, Fátima Guedes, Sylvia Telles, Roberto Menescal, Flávio Venturini, Toninho Horta, Belchior e outros emepebistas que não se submetem ao único espaço mercadológico permitido para a expressão da MPB autêntica: as trilhas sonoras de novela da Rede Globo.

Na música brasileira, os efeitos foram devastadores. O desgaste já observado nos caricaturais ídolos do "pagode romântico" e "sertanejo" que fizeram sucesso na Era Collor (como Chitãozinho & Xororó, Raça Negra, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel, Belo e Alexandre Pires), já em 2002, foi prolongado quando se forçou a barra para obrigá-los a fazer uma falsa MPB de mercado.

Gravando covers encomendados para especiais de televisão e usando uma roupagem supostamente emepebista que já correspondia à fase comercial que as gravadoras multinacionais impuseram à MPB nos anos 80, os brega-popularescos dos anos 90 não esconderam seu desgaste e sua impotência em parecerem "gênios da MPB" aos olhos do corporativismo midiático e seu público.

O caso de Zezé di Camargo & Luciano é ilustrativo. Com um filme patrocinado pela Globo Filmes, que encenava, de forma dramatúrgica, a vida dos dois irmãos, os dois foram empurrados por uma trilha sonora que, fora eles, só tinha emepebistas. Quando se acreditava que a dupla se evoluiria artisticamente com o filme Os Dois Filhos de Francisco (2005), de Breno Silveira, a coisa desandou.

Depois de seus quinze minutos de fama ao lado de intelectuais e artistas sérios, Zezé di Camargo & Luciano surtaram. Tentando investir em vários gêneros, perderam o rumo na carreira musical. Sempre foram artisticamente duvidosos, mesmo com o sucesso "É o Amor", uma canção sem pé nem cabeça de arranjos que lembram o brega mofado dos anos 1970, mas tinham alguma produtividade.

Depois do sucesso do filme, a dupla tentou "modernizar" seu som "atirando" para todos os lados, mas tudo o que resultou foi a redução da dupla e de seus familiares - como a ex-mulher de Zezé, Zilu Camargo, as filhas Wanessa e Camila, esta atriz, e o genro, por parte de Wanessa, Marcus Buaiz - num clã de famosos, em maior parte subcelebridades, nos moldes dos Kardashian/Jenner nos EUA.

A RETÓRICA DO "FUNK"

Outro grande erro foi forjar ativismo social e vanguardismo cultural nos fenômenos mais rasteiros do brega-popularesco. Vários estilos, como o brega dos anos 1970, o "forró eletrônico", o tecnobrega e outros, eram vistos como se fossem uma suposta "rebelião popular" que reagia contra o "bom gosto" da "luxuosa" MPB.

Uma certa omissão discursiva era observada, como a incapacidade dos intelectuais associados em esclarecer por que os ídolos "populares" de hoje não tinham a relevância artística nem a contundência e visceralidade dos artistas populares do passado, como Cartola, João do Vale, Tonico e Tinoco, Nelson Cavaquinho, Jackson do Pandeiro e Marinês e Seu Conjunto.

O "funk carioca" tornou-se o carro-chefe dessa retórica intelectual, subordinada aos interesses de expansão de mercado de empresários e DJs que, nos anos 90, que reduziram a herança do antigo funk e do funk eletrônico de Afrika Bambattaa em uma sonoridade simplória e rasteira, de vocais malfeitos como se fossem num karaokê sob rústicas batidas eletrônicas.

Toda uma retórica foi feita para esconder a primaridade sonora do "funk" com um rico discurso, com um quê de demagógico, que atribuía ao gênero uma criatividade que nunca existiu e uma variedade de referências culturais e comportamentais que nunca houve.

Enquanto, na prática, o "funk" era um amontoado caótico de sons e vocais ruins, que se repetia em diferentes intérpretes e gravações, com o uso de praticamente os mesmos efeitos sonoros, e valores como o machismo, o racismo e a apologia à ignorância e à pobreza eram difundidos nas populações pobres, a retórica intelectual tentava argumentar o contrário de tudo isso.

Houve mulheres intérpretes de "funk" que tentaram expressar um suposto feminismo, mesmo quando simbolizavam a condição machista da mulher-objeto. Uma delas chegou a se destacar como "ativista", supostamente lendo "Madame Bovary", de Gustave Flaubert e bajulando o neo-feminismo da atriz britânica Emma Watson.

A pregação ideológica, com um apetite de persuasão comparável ao de uma mensagem publicitária, resultou tão somente na entrada do "funk" em mercados de elite. Como um dos efeitos naturais da campanha demagógica, foi uma festa de jovens ricos num evento noturno da Praça Mauá, em que se simulou um "baile funk" com ingressos vendidos a preços exorbitantes.

CRISE CULTURAL

Vários aspectos acabaram se tornando omissos na retórica de intelectuais badalados. Como a equivocada apreciação esquerdista do "sertanejo" (e, recentemente, a versão festiva chamada "sertanejo universitário", que na prática não tem a ver com cultura rural nem com universidades), criando uma contramão das posturas políticas, simpatizantes aos movimentos camponeses.

Musicalmente, aceitava-se a forma deturpada da música caipira, a partir das deturpações de Chitãozinho & Xororó, patrocinadas pelo mesmo latifúndio que o discurso esquerdista combatia. O desencontro entre a postura política, alinhada ao Movimento dos Sem-Terra, com a defesa de tendências musicais patrocinadas pelo latifúndio e pelo agronegócio, era notório.

Diante desse processo, a crise na cultura brasileira se deu, até antes da crise econômica. Contradições eram difundidas, deixando a intelectualidade associada à campanha pelo brega-popularesco em situação de impasse. Como, por exemplo, a abordagem depreciativa das classes populares, trabalhadas de forma estereotipada pelo brega-popularesco.

Por outro lado, também os ídolos brega-popularescos adotavam posturas conservadoras e nada progressistas, causando problemas na intelectualidade associada. A mudança ideológica de Zezé di Camargo & Luciano, conservadores dissimulados pela votação em Lula para a presidência da República, mas votando no direitista Ronaldo Caiado para deputado federal (hoje ele é senador), para o apoio a Aécio Neves, é bastante ilustrativo.

Juntamente a isso, está a degradação do mercado cultural como um todo. A música brasileira sucumbiu a um comercialismo cada vez mais explícito a partir de 2009, culminando, hoje, com ídolos como Anitta, Nego do Borel, Lucas Lucco, Ludmilla e outros. Ou da mesmice do "sertanejo universitário" de duplas como Marcos & Belutti, Zé Neto & Cristiano, Munhoz & Mariano, entre outros.

Por outro lado, veio o mercado literário apegado ao supérfluo, com a prevalência de títulos religiosos, livros de auto-ajuda e frivolidades juvenis como romances sobre jovens vampiros ou jogos eletrônicos de Minecraft, ao lado da irregular onda de vlogueiros, comentaristas cotidianos apelidados de youtubers por causa dos canais no portal de vídeos YouTube.

No teatro, o cenário retrocedeu aos parâmetros dos anos 1950, até de forma piorada, já que a predominância de um teatro "estrangeirizado", que era expresso pela antiga sofisticação eurocêntrica do Teatro Brasileiro de Comédia, deu lugar a comédias americanizadas.

No cinema, a supremacia da Globo Filmes, vinculada às Organizações Globo, também criou um impasse para a intelectualidade pró-brega, incapaz de explicar o apoio da corporação a filmes como Os Dois Filhos de Francisco e o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, da cineasta Denise Garcia, ex-funcionária da Rede RBS (parceira gaúcha das Organizações Globo).

Com essa supremacia, a agenda temática do cinema brasileiro tornou-se restritiva, situada entre a glamourização da pobreza e a reprodução de fórmulas cinematográficas da indústria estadunidense, vide comédias inócuas como Qualquer Gato Vira-Lata, De Pernas pro Ar e Até que a Sorte nos Separe.

É um quadro de crise cultural que poucas pessoas conseguem perceber, por elas estarem presas a perspectivas ao mesmo tempo quantitativas e economicistas. E é isso que fez a Lei Rouanet decair, ao passo que a cultura de qualidade vê diminuir espaços de divulgação e expressão em detrimento de fenômenos de gosto e valor duvidosos.

Foi isso que fez o Partido dos Trabalhadores e as esquerdas associadas - mesmo o PSOL que fazia uma oposição à esquerda ao PT estava neste contexto - se desgastarem no âmbito cultural. A chamada "cultura de massa", de valor bastante duvidoso, prevaleceu, favorecendo não as classes populares, mas os empresários da indústria do entretenimento vinculados ao brega-popularesco e outros âmbitos comerciais.

Com isso, as classes populares foram vistas apenas como consumidores. Com toda a retórica demagógica de pretensas alegações de ativismo, arte e vanguarda cultural, o que esteve em jogo foi puramente empurrar tendências duvidosas para o reconhecimento intelectual geral, permitindo assim a consolidação mercadológica de modismos que nem de longe viam na cultura popular um projeto de transmissão de conhecimentos e valores.

Em vez disso, o que se vê como "cultura popular" é uma deterioração de valores sócio-culturais, baseados numa versão preconceituosa das classes populares difundida por uma elite intelectual. Isso vai contra a verdadeira cultura popular, comprometida com a transmissão de conhecimentos e valores que servem não para estagnar o povo pobre, mas fazê-lo progredir socialmente.

A intelectualidade dita "sem preconceitos" criou preconceitos piores sobre as classes populares. Forçadamente vinculada ao esquerdismo, enfraqueceu os debates culturais nas esquerdas, e isso foi decisivo para tirar as classes populares dos próprios debates que serviriam para a melhoria de vida, o que também enfraqueceu politicamente o PT, isolado dentro de um debate esvaziado pela ausência de seus próprios beneficiados, "distraídos" com o entretenimento brega-popularesco.

FONTES: Carta Capital, Blogue Mingau de Aço, O Globo, Folha de São Paulo, Observatório da Imprensa, Diário do Centro do Mundo.

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