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A CRISE DA CULTURA E DO GOVERNO MICHEL TEMER


Por Alexandre Figueiredo

Quando o presidente interino da República, Michel Temer, parecia acalmar os ânimos com a recriação do Ministério da Cultura, depois de tentar reafirmar que a Secretaria Nacional de Cultura, subordinada ao Ministério da Educação e Cultura, que chegou a ser recriado, iria fortalecer o setor, eis que nova e grave crise acontece, fora desse âmbito, atingindo o governo.

Foi divulgada, hoje de manhã, uma gravação do ministro do Planejamento, Romero Jucá, revelando os bastidores do estranho processo de impeachment, que afastou a presidenta Dilma Rousseff através de suspeitas tão vagas de corrupção que não passaram de fofocas plantadas pelos oposicionistas para despertar a ira popular, orquestrada pela mídia associada, para tirá-la do Governo Federal.

Nela, Romero, que horas depois se licenciou do cargo devido à má repercussão da divulgação da gravação, conversava com o ex-diretor da Transpetro, Sérgio Machado, na gravação anterior ao afastamento de Dilma, acertando os detalhes para forçar o impeachment que dificultaria o avanço das investigações da Operação Lava-Jato.

Romero foi então denunciado por obstruir as investigações e a gravação vazou a hipótese de golpe político-jurídico, sob o apoio da mídia ("a imprensa, os caras querem tirar ela"), o que provocou uma grave crise do governo de Michel Temer, pior do que a do Ministério da Cultura que chegou a ser extinto e teve que ser reativado sob pressões do meio artístico e ocupações em prédios de instituições ligadas ao setor.

Na terça-feira, o ministro da Cultura Marcelo Calero, advogado e diplomata que havia sido anunciado para a natimorta Secretaria Nacional de Cultura, tomará posse diante de um governo politicamente fragilizado, pelas razões óbvias de falta de legitimidade e de apoio popular e de um processo suspeito de instauração, sobretudo com vários ministros envolvidos em crimes e indiciados pela Operação Lava-Jato.

SITUAÇÃO COMPLICADA

O setor da cultura vive uma crise, em diversos níveis. Não pela falta de bons artistas, boas iniciativas, boas expressões, mas pelo fato de que a mediocridade cultural respaldada pelo mercado e pela mídia dominar o grande público e alcançar espaços de expressão e divulgação ligados à cultura de qualidade reconhecida.

Boa parte dessa crise permitiu o golpe contra Dilma Rousseff foi favorecida pela campanha de intelectuais culturais que defendiam o brega-popularesco, um conjunto de referenciais musicais, comportamentais e jornalísticos que se fundamentavam na imagem caricatural do povo pobre, expressa pelo apego ao grotesco e ao pitoresco e à glamourização da pobreza, da ignorância e da violência.

Durante uma década, uma geração de antropólogos, sociólogos, cineastas, artistas e jornalistas culturais, entre outras funções, buscou persuadir a opinião pública de que as tendências de gosto e valor bastante duvidosos associados à "cultura de sucesso" eram a "verdadeira cultura popular".

A manipulação ideológica era feita usando os mais sofisticados recursos da linguagem comunicacional, como a História das Mentalidades e o Novo Jornalismo (New Journalism), sob a roupagem de monografias, filmes documentários e grandes reportagens.

Fazia-se falsa etnografia para tentar legitimar sucessos musicais de valor duvidoso, pastiches de ritmos populares acrescidos da cosmética pop estadunidense, ou pessoas que, no âmbito geral, representassem aspectos levianos que a sociedade atribuía às classes populares.

O estranho discurso intelectual, usando a desculpa do "combate ao preconceito", defendia valores muito estranhos para as causas progressistas. O estranho ufanismo das favelas - caóticas construções suburbanas motivadas pela exclusão imobiliária - , a defesa da prostituição como uma profissão permanente, a exaltação do subemprego e do entretenimento restrito à embriaguez do alcoolismo.

Vícios como o alcoolismo e a exploração sexual de menores eram sutilmente defendidos por esses intelectuais comprometidos com a bregalização da cultura brasileira como se fossem valores "positivos": a exploração sexual como "descoberta" da sexualidade pelas meninas pobres e o alcoolismo como forma de consolo das almas sofridas dos trabalhadores.

Com essa campanha estranha, que escondia preconceitos cruéis de uma intelectualidade que se dizia "sem preconceitos", o povo pobre era trabalhado de forma caricatural pela mídia e pelo mercado, e, com isso, era induzido a ficar fora do debate cultural e político, já que a imagem idiotizada da "cultura" brega os desestimulava a pensar em coisas importantes, enquanto os estimulava a se apegar em tolices e frivolidades.

Com o povo pobre fora do debate, as forças progressistas foram enfraquecidas sem a participação do maior interessado, o povo pobre, ou ao menos sem a participação em larga escala. Com isso, a oposição teria se aproveitado disso para fazer seu suposto ativismo e pedir a saída de Dilma Rousseff sob o pretexto do "combate à corrupção", expressão de veracidade tão duvidosa quanto o "combate ao preconceito" dos intelectuais do brega-popularesco.

Isso complicou a situação, porque forçou uma crise de valores que permitiu a corrupção político-empresarial que, usando como ganchos a Copa do Mundo FIFA de 2014 e as vindouras Olimpíadas Rio 2016, fez sumir o dinheiro que seria para as medidas de cunho sócio-econômico do governo Dilma Rousseff.

SETOR COMPLEXO

Assim como os temas de cunho sócio-econômico são complexos, o da cultura também o é. E a ausência quase absoluta do povo pobre dos debates progressistas, forçadas por toda uma pregação pela bregalização cultural por intelectuais "independentes" a serviço dos interesses da grande mídia, fez com que todo um processo de golpe contra o governo de Dilma Rousseff foi executado.

"Descendo até o chão" com os sucessos "populares demais" temperados com referenciais de comportamento grotescos e bisonhos, o povo pobre foi pego de surpresa diante da pressão midiática contra o governo Dilma e, impotente, viu Michel Temer, seu então vice-presidente, tomar o poder de maneira gananciosa e estabelecer um programa de governo retrógrado e antipopular.

No caso do Ministério da Cultura, a decisão de Michel Temer de extingui-lo e substitui-lo pelo velho Ministério da Educação e Cultura, se limitando a criar uma Secretaria Nacional de Cultura subordinada ao MEC, escondia um tema muito complexo que havia sido sacrificado tanto pelo corte de gastos quanto pela castração política de um governo ultraconservador.

Daí os protestos que vieram dos movimentos sociais, dos grupos estudantis, dos artistas, com manifestos durante apresentações musicais ou em passeatas e também por meio de ocupações de prédios de instituições ligadas ao antigo MinC.

O setor de cultura é tão complexo que o MinC abrigava diversas instituições, como a Fundação Biblioteca Nacional, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Agência Nacional de Cinema (ANCINE), o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Seria complicado que tais instituições atuem com a mesma autonomia subordinadas a uma secretaria que é subordinada a um ministério, não bastasse o titular do MEC e hoje apenas do Ministério da Educação, Mendonça Filho, não ser um especialista em Cultura. A entrada de Marcelo Calero parece prometer diminuir esse problema, mas não totalmente.

Juntando a lógica neoliberal do governo Michel Temer, baseada no corte de gastos e numa pespectiva político-econômica conservadora, mesmo o novo Ministério da Cultura não irá cobrir todas as demandas do setor.

Mesmo a disposição de Marcelo Calero de ouvir a sociedade não se comparará à espontaneidade quase cúmplice de Juca Ferreira com a classe artística e os movimentos sociais e de preservação do patrimônio cultural. Embora houvesse um esforço de manter o tratamento do antigo MinC, a versão Temer do referido ministério irá restringir a abordagem a critérios os mais pragmáticos possíveis.

Desta forma, eventos como o Carnaval, em cidades como Rio de Janeiro e Salvador, as festas religiosas, a dança do Boi-Bumbá ou as obras de preservação de Ouro Preto poderão ser apreciadas com igual naturalidade e dedicação.

No entanto, eventos bem mais complexos, como fazer um levantamento dos cultos afro-religiosos na Baixada Fluminense, a culinária de tribos indígenas pouco conhecidas ou um documentário similar ao Time Will Burn, filme de Marko Panayotis e Otávio Sousa sobre a cena de rock alternativo de 1990, teriam dificuldades de obter o apoio de uma Secretaria Nacional de Cultura, por critérios de prioridade, e pelo Ministério da Cultura da gestão Temer, por critérios político-econômicos.

As prioridades continuarão sendo, diante disso, de âmbito institucional, econômico e político. As atividades contempladas serão as voltadas ao turismo, ao sucesso financeiro em geral, ao apelo midiático, à tradição histórica e às tradições político-institucionais já estabelecidas. Dizendo em linguagem mais acessível, é como se o governo Temer só apreciasse o mainstream do patrimônio cultural brasileiro.

Agora, com o governo Temer fragilizado pelo vazamento das mensagens trocadas por Romero Jucá e Sérgio Machado, o "novo" Ministério da Cultura, ou seja, a Secretaria Nacional de Cultura dotada de autonomia operacional, iniciará suas atividades num processo de incerteza diante de um governo instituído pela usurpação de poder e indiferente às mais complexas demandas da sociedade.

FONTES: Folha de São Paulo, Diário do Centro do Mundo, Carta Capital, IPHAN, Portal G1.

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