Por Alexandre Figueiredo
A notícia, duas atrás, do falecimento do cantor e compositor Benito di Paula gerou comentários exagerados que chegavam ao nível da pieguice constrangedora, mesmo sob a aparência da objetividade jornalística. Foi tratado como se fosse um gênio visionário, um artista revolucionário cuja perda tornou-se irreparável. Ultimamente esquecido, Benito chegou a ser definido como “subestimado” pelos seus admiradores.
A música de Benito di Paula pode agradar a esse público e inspirar até memórias nostálgicas pessoais, mas essas memórias residem no âmbito do sentimentalismo e não servem para um julgamento artístico sério, por mais que narrativas sejam feitas para forjar uma hipotética superioridade artística.
Como todo ídolo cafona, Benito carece de profundidade artística. Na música brega, mesmo a mais antiga, que a crítica brasileira classifica como “sofisticada”, os cantores e compositores são meramente hitmakers, ou seja, fazem música comercial. O alegado “não-comercialismo” é apenas um capricho de subjetivismo emotivo, que confunde agradável com relevante.
Na verdade, o que está por trás dessa exaltação ao brega mais antigo, mesmo sob o verniz do “justo reconhecimento artístico-cultural”, é um esquema de relações de negócios que cercam os ídolos popularescos do passado e até do presente, podendo ser tanto um Michael Sullivan quanto um nome recente como João Gomes, ou então nomes festejados como Ivete Sangalo e Chitãozinho & Xororó.
Trata-se de um poderoso lobby que envolve vários agentes: empresários dos cantores envolvidos, empresários do entretenimento em geral, executivos de TV e rádio, chefes de redação da imprensa e executivos fonográficos. São relações que nada têm a ver com a verdadeira cultura, com tantos interesses econômicos envolvidos.
Essa música comercial à brasileira segue normas de produção musical que remetem às regras do comercialismo musical dos EUA. Não se trata de ver, ingenuamente, como música que reflete as “emoções e anseios das comunidades”. Trata-se, isso sim, de sucessos comerciais e o discurso de “cultura popular” é apenas um truque de marketing.
Quando analisei a campanha do “combate ao preconceito “ da bregalização musical, o truque de marketing adotado foi bastante sofisticado: o aparato de monografias e artigos acadêmicos, de documentários e grandes reportagens. Havia desde a apropriação de narrativas antropológicas da História das Mentalidades de Marc Bloch e de narrativas textuais do Novo Jornalismo de Tom Wolfe.
Mas esses recursos de linguagem servem apenas par criar um aparato de objetividade, com a finalidade de fazer a música populareca ter durabilidade. Isso é feito para tentar mascarar o caráter comercial da música brega-popularesca e sua marcante influência pelo pop dos Estados Unidos.
Jogando à margem a verdadeira musicalidade brasileira, das antigas manifestações folclóricas até a sofisticação recente da MPB dos anos 1960-1970 (com alguns derivados surgidos nas décadas posteriores), a bregalização musical buscou sua hegemonia comercial tentando renegar, no discurso, o comercialismo explícito que pratica.
As próprias tendências popularescas tem seus ingredientes do pop estrangeiro de sucesso nos EUA, ainda que vindo de outros países como o Reino Unido, México e a Itália. As primeiras gerações de ídolos cafonas faziam pastiches de boleros e rock italiano com base nos sucessos comerciais dos anos 1960.
Mesmo rotmos que, supostamente, exploram alguma brasilidade, como a axé-music, o “forró eletrônico”, o “pagode romântico” e o “sertanejo” sempre incluem algum elemento do pop comercial dos EUA. Elementos como a disco music, o rock pasteurizado, a country music e a soul music chegam a ser ingredientes mais fortes do que os arremedos de regionalismo e isso ocorre por viralatismo e não por antropofagia cultural.
Tudo isso alimenta um mercado e um lobby de relações que exige da crítica musical um tratamento acrítico e complacente. O processo se faz sob um aparato de objetividade e o pretexto de suposto reconhecimento artístico-cultural. Mas tudo não passa de negócio, com o fim de fazer os ídolos popularescos durarem mais do que seis breves anos de fama.
FONTES: Portal G1, Carta Capital, Blogue Linhaça Atômica.

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