Pular para o conteúdo principal

A SUPREMACIA DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA NATURALIZADA PELA POPULAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

 Durante anos, prevaleceu a narrativa de que o comercialismo "popular demais" da música brega-popularesca era a "verdadeira cultura popular". Com muito pretensiosismo, falava-se em "popular com P maiúsculo" e, com certo exagero e um forte tom de cinismo, em "verdadeira MPB". Essa narrativa, denominada "combate ao preconceito", revelou-se depois uma grande farsa, uma conversa para boi dormir e para proletários, camponeses e desempregados adormecerem junto.

Com o tempo, se viu que essa retórica "contra o preconceito" escondeu interesses políticos e comerciais bastante estratégicos. Isso não é difícil de entender. A "cultura" popularesca cresceu não porque uma multidão de pessoas humildes vindas do nada passaram a apoiar os ídolos popularescos de talento musical de mediano para baixo e nem pela inocente difusão de rádios, TVs e revistas solidários ao povo pobre.

Um processo nada popular fez com que a música brega-popularesca e os valores culturais que o cercavam, associados à glamourização da pobreza e da miséria, fossem naturalizados, e isso não é de hoje. Desde os esforços do coronelismo radiofônico dos anos 1950-1960, passando pela ditadura militar e por governos de centro-direita (Sarney, Collor e FHC), a mediocrização da música brasileira passou por um esquema de propaganda estratégica que os intelectuais fingem que desconhecem.

A música brega-popularesca, também conhecida como "música do povão" ou "música popular demais", é o comercialismo musical por excelência no Brasil. Embora as narrativas apelem, com subjetivismo estranho demais para as reportagens, monografias e documentários divulgam e que mal conseguem esconder um certo juízo de valor, por mais "positivo" que pareça, de que essas músicas "representam as emoções e os anseios do povo pobre", os interesses mercantis são bastante óbvios.

Intelectuais e jornalistas chegam mesmo a dar como exemplos as letras das canções relacionadas a cada onda brega-popularesca do momento, numa narrativa falsamente etnográfica, mas com um discurso bastante caprichado para soar "objetivo" e "imparcial". 

Seja a onda do breganejo dos anos 1990, do "funk", do arrocha, do piseiro, da axé-music e o que vier por aí e sem esquecer os antigos ídolos cafonas do passado, "pescar" letras virou um recurso tendencioso das elites intelectuais solidárias a esse comercialismo, com o objetivo de criar uma máscara "espontânea", mais uma mentira que serve ao propósito da propaganda, que se alimenta da fantasia e do discurso naturalista para vender seus produtos.

O recurso discursivo deu certo. Reportagens, monografias e documentários se serviam dos mais avançados métodos discursivos - como a narrativa jornalística do Novo Jornalismo de Tom Wolfe e a narrativa social da História das Mentalidades de Marc Bloch - , que eram usados de maneira tendenciosa e leviana, para forjar uma falsa perenidade aos sucessos radiofônicos feitos para durar seis meses de execução.

Era, portanto, um recurso sofisticado de lingugem e persuasão feito para promover processos culturalistas que envolvem a mediocrização artística ou mesmo a idiotização social. O povo pobre virava caricatura de si mesmo e os intelectuais tentavam descrever esse triste processo como se fosse "positivo". Ou seja, o povo pobre seria "melhor" naquilo que ele, pelas condições sociológicas dos últimos 60 anos, faz de pior.

Esse processo, acompanhado de um engenhoso e massivo processo de divulgação dos ídolos popularescos a partir da mídia convencional, e que se baseava em apelos como "combater o preconceito" e "valorizar a cultura das periferias", acabou consolidando e fortalecendo a música brega-popularesca, que criou terrenos culturalmente tão fechados como são, por exemplo, os domínios das milícias nas favelas em várias partes do Brasil, principalmente o Rio de Janeiro.

Isso mesmo. Enquanto as narrativas dóceis do "provocativo" jornalista cultural, da "antenada" cineasta de documentários ou do "pesquisador" antropólogo falem dos "sucessos do povão" como "manifestação dos desejos e vivências da população pobre", a realidade mostra que o buraco é mais embaixo, com oligarquias regionais tutelando os ritmos popularescos locais, sufocando as demais manifestações culturais.

Essa constatação é comprovada quando, por trás do choroso apelo da "inclusão social" quando há um dueto entre um ídolo popularesco e um artista da MPB ou do Rock Brasil, relações de negócios ocultas estão em jogo. Enquanto a narrativa oficial trata o ídolo popularesco como um "coitadinho em busca de um lugar ao Sol na MPB", a verdade é que quem é o coitado é o artista de MPB ou rock brasileiro, pois o ídolo popularesco é que está no poder.

Nos últimos tempos, se revelou que quem realmente passa por problemas financeiros são os nomes da MPB, acusados de "aristocráticos", ou do Rock Brasil, que precisa mendigar um espaço na rádio paulista 89 FM, de propriedade de uma família que apoiou a ditadura militar e hoje é representada pelo executivo João Camargo, considerado um dos empresários mais ricos e poderosos de São Paulo.

Enquanto artistas como Ivan Lins e, no passado recente, os bossanovistas Johnny Alf e João Gilberto, tiveram revelados seus quadros de problemas financeiros, ídolos como João Gomes, que vendem a imagem de "simplicidade" e "humildade", são donos de imóveis e outros bens com valores milionários. Mesmo ritmos "pobres" como arrocha, piseiro e "funk" mostram que seus ídolos possuem bens caríssimos, incluindo mansões, carros importados, joias e até aviões particulares.

Para piorar, ouvir música brega-popularesca ficou tão naturalizado que se tornou o "novo normal". Não há uma pessoa que não manifeste algum apreço a um ídolo brega-popularesco, sejam os mais antigos, sejam os atuais, incluindo também nomes situados entre um passado recente e uma carreira ainda ativa, como Chitãozinho & Xororó, Michael Sullivan, Bell Marques e Mastruz Com Leite.

Tudo ficou numa zona de conforto auditiva, na qual se fala até em popularescos "sofisticados", como Péricles, Ana Castela, Bell Marques e Chitãozinho & Xororó. Houve uma onda nostálgica do brega-vintage, que tentou reabilitar o É O Tchan e gerou sucessos como "Evidências" e "Lua de Cristal", composições respectivamente dos bregas José Augusto e Michael Sullivan cantadas por Chitãozinho & Xororó e Xuxa Meneghel.

Aliás, para piorar as coisas, Xuxa nunca teve um talento significativo de cantora, mas, por conta da narrativa nostálgica do brega-vintage, ganhou reputação de "cantora de protesto", enganando até mesmo a banda de rock estadunidense feminina Haim, "estimulada" a cantar uma cover de "Ilariê" quando veio ao Brasil. A onda das falsas canções de protesto também gerou um "hino", o sucesso de axé-music "Xibom Bom Bom", do grupo As Meninas, composição do rico empresário e produtor Wesley Rangel.

Enquanto a música brasileira autêntica vê morrerem artistas como o guitarrista Luiz Carlini, que tocou com Rita Lee na banda Tutti-Frutti (é dele o solo final de "Ovelha Negra", da também saudosa cantora paulista) e o cantor Gilson Vieira, de "Casinha Branca", como se não bastasse o obituário incluir, hoje, nomes até pouco tempo atrás vivos, como Gal Costa, Erasmo Carlos, Lô Borges e Moraes Moreira, a MPB carece de verdadeira renovação.

Hoje o que se vende como "nova MPB" é majoritariamente de cantores e cantoras que estão mais preocupados com a "provocatividade" e o "empoderamento", sem oferecer um trabalho que deixasse marca profunda no cancioneiro brasileiro carente de novas grandes canções. A crítica é até generosa demais com certos nomes, e já se falou até numa "nova Semana de 1922" da MPB, mas nada se consagrou, se limitando a nomes "provocativos" que só empolgam a comunidade woke.

Diante disso, o cenário musical brasileiro se encontra numa situação catastrófica. A música popularesca virou um grande coronelismo cultural, onde ritmos dominantes em suas respectivas regiões sufocam as verdadeiras expressões musicais. A MPB precisa fazer duetos com ídolos popularescos ou oferecer músicas para estes coverizarem, se quiserem tocar em certas regiões.

No Rock Brasil, a coisa não é diferente. A recente decisão do ex-Titãs Paulo Miklos de gravar uma versão de "Evidências" não tem a ver com a pretensa reputação de "clássico oculto" da canção consagrada por Chitãozinho & Xororó, mas de um acordo para o roqueiro ter acesso a lugares como Mato Grosso, Goiás e até mesmo o interior do Paraná, que condicionam o apreço ao breganejo para poder se apresentar nesses locais.

Esta também é a razão pela qual a banda Nação Zumbi teve que se apresentar com o piseiro João Gomes atuando como "dublê" de Chico Science, que foi o finado vocalista e fundador da banda pernambucana, há poucos meses atrás, quando o ídolo popularesco buscava se promover pegando carona em duetos com artistas de MPB. 

Com uma propaganda enganosa exaltando a performance medíocre do ídolo do piseiro - que só seria capaz de cantar versos como "Computadores fazem arte / Artistas fazem dinheiro" com a fluência de um leitor de teleprompter - , a participação de Gomes junto à banda de mangue beat foi uma forma para permitir que o grupo tivesse acesso em demais cidades do Nordeste, dominadas pelo forró-brega e pelo seu derivado recente, que é o piseiro.

Outro objetivo também nunca comentado é a venda de produtos. As músicas brega-popularescas muitas vezes são jingles não-assumidos, quando seus temas se voltam ao consumo de cerveja, automóveis, telefones celulares e plataformas das redes sociais. Sucessos como "Camaro Amarelo" e "Novinha do Zap-Zap" (apelido do WhatsApp) são ilustrativos. Ou seja, a música "popular demais", se manifesta alguma coisa, é tão somente na condição de trilha sonora de consumo de bebida alcoólica.

Com essas informações todas, a música brega-popularesca mostrou que contraria as narrativas de ser a "verdadeira canção popular", trazida por uma campanha que, prometendo "combater o preconceito", mostrou-se mais preconceituosa. Enquanto isso, poderosos empresários, fazendeiros e executivos de mídia se enriquecem com os sucessos popularescos enquanto o povo fica cada vez mais acostumado e viciado com esses sucessos musicalmente medíocres.

FONTES: Caros Amigos, Carta Capital, Revista Fórum, Universo On Line, Portal G1, Portal Terra, Blogue Linhaça Atômica.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

IPHAN TOMBA CENTRO HISTÓRICO DE JOÃO PESSOA

Por Alexandre Figueiredo No dia 05 de agosto de 2008, o Centro Histórico da cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, passa a ser considerado patrimônio histórico. Uma cerimônia realizada na Câmara Municipal de João Pessoa celebrou a homologação do tombamento. No evento, estava presente o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Luiz Fernando de Almeida, representando não somente a instituição mas também o ministro interino da Cultura, Juca Ferreira, ausente na ocasião. Luiz Fernando recebeu dos parlamentares municipais o título de "Cidadão Pessoense", em homenagem à dedicação dada ao Centro Histórico da capital paraibana. Depois do evento, o presidente do IPHAN visitou várias áreas da cidade, como o próprio local tombado, além do Conjunto Franciscano, o Convento Santo Antônio e a Estação Cabo Branco, esta última um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer que foi inaugurado no mês passado. Luiz Fernando de Almeida participou também da abertura da Fei...

A POLÊMICA DA HISTÓRIA DAS MENTALIDADES

Por Alexandre Figueiredo Recentemente, a mídia lançou mão da história das mentalidades para legitimar tendências e ídolos musicais de gosto bastante duvidoso. O "funk carioca", o pagode baiano, o forró-brega, o breganejo e outros fenômenos comerciais da música feita no Brasil sempre lançam mão de dados biográficos, de sentimentos, hábitos pessoais dos envolvidos, chegando ao ponto da ostentação da vida pessoal. Também são mostradas platéias, e se faz uma pretensa história sociológica de seus fãs. Fala-se até em "rituais" e as letras de duplo sentido - na maioria das vezes encomendada por executivos de gravadoras ou pelos empresários dos ídolos em questão - são atribuídas a uma suposta expressão da iniciação sexual dos jovens. Com essa exploração das mentalidades de ídolos duvidosos, cujo grande êxito na venda de discos, execução de rádios e apresentações lotadas é simétrico à qualidade musical, parece que a História das Mentalidades, que tomou conta da abordagem his...

COMO A FARIA LIMA FAZ PARA CASTRAR O PENSAMENTO E A CRIATIVIDADE

A ELITE EMPRESARIAL DA FARIA LIMA ATUA COMO MANIPULADORA DOS VALORES CULTURAIS NO BRASIL DOS ÚLTIMOS 50 ANOS. Por Alexandre Figueiredo Quando a repressão ditatorial começou a repercutir de maneira negativa e o “milagre brasileiro” entrou em crise, ao concentrar seus benefícios para as classes abastadas, houve uma preocupação das elites civis que apoiavam a ditadura militar em criar meios para abafar a revolta popular e a revalorizar a hierarquia institucional, restringindo, assim, o processo de redemocratização, hipótese que já estava em pauta nos movimentos sociais daquela época, por volta de 1974. A ideia do poder suave - do inglês soft power - é uma maneira de minimizar os efeitos sociais, econômicos e políticos do golpe de 1964 sem comprometer as estruturas de poder conquistadas então. É um meio para reduzir os danos humanos mas mantendo os privilégios de poder, evitando revoltas e pensamento crítico sem que fosse preciso o uso da força. A Faria Lima, neste caso, é uma espécie de...