Por Alexandre Figueiredo
Você lê as notas a respeito de um ídolo popularesco do passado. Tipo Odair José e Gretchen. A narrativa do crítico musical de plantão descreve mil maravilhas, fazendo crer que nomes assim, tais como outros como Luiz Ayrão, Wando e Benito di Paula, seriam “artistas de vanguarda”.
Você, lendo tudo isso, vai dormir tranquilo por achar que se trata de uma “ruptura do preconceito”, de um “reconhecimento do verdadeiro (sic) valor artístico” dado a nomes de fácil sucesso comercial. Feliz da vida, você e seus amigos acabam acreditando que o jabaculê de ontem será o folclore de amanhã.
Mas essa narrativa, travestida de um discurso de “objetividade” - à maneira dos artigos dos antigos “institutos” IPES-IBAD em relação às “mazelas” do governo João Goulart em 1964 - , que se estende tanto para tentar relançar um ídolo duvidoso como Michael Sullivan quanto para gourmetizar um hype como João Gomes, é fruto de uma logística de negócios que nada tem a ver com valores culturais das classes populares.
Trata-se de um processo engenhoso, um lobby poderoso que envolve executivos de gravadoras e de emissoras de rádio e televisão e empresários do ramo do entretenimento. É um esquema que está por trás das narrativas “inocentes” que desde 2002 se difundem em larga escala sobre a música brega-popularesca.
Tudo tem que estar no âmbito da ilusão. Mas como há uma grande estratégia em jogo, para dar maior durabilidade nos ídolos popularescos, são utilizados artifícios de objetividade para tratar de forma quase “científica” modismos e ídolos que fizeram sucesso comercial durante uma temporada.
Daí que vemos reportagens e entrevistas com ídolos popularescos, assim como ensaios “imparciais”, monografias e filmes documentários, expondo de maneira descritiva e acrítica os fenômenos “populares demais” de forma a evitar que se pareça mera propaganda. O objetivo é vender novamente os ídolos popularescos de modo a fazê-los parecer “melhores” do que haviam sido na ocasião do sucesso estrondoso.
Nunca a Faria Lima investiu tanto no setor cultural do que nos últimos anos. Desde 1974, no entanto, o poderoso empresariado do Itaim Bibi, Zona Sul de São Paulo, estabelece um controle sociocultural que permitiu a ditadura militar, sem eliminar totalmente a repressão, afrouxar de forma gradual o regime.
Desde 2002, no entanto, as ações se tornaram mais intensas, no sentido de domesticar de maneira efetiva e cultural os pobres, jovens e, em parte, também os roqueiros, estes através da intervenção direta da Faria Lima, por meio de um mercado comandado pela 89 FM e pelas empresas de festivais de música.
A partir desse ano, a campanha “contra o preconceito” visava ampliar mercados da música popularesca, além de abafar as críticas que apontavam o desgaste dessa fórmula. Mas a ajuda das companhias fabricantes de cerveja, maiores interessadas por essa campanha da bregalização, fez a música brega-popularesca “continuar respirando” e, como se não bastasse, ampliasse mercados de tal maneira que passou a ocupar espaços onde a MPB e o Rock Brasil se expressavam.
Não se trata exclusivamente de fazer propaganda mais atrativa de ídolos popularescos, mas de dar sustentabilidade intelectual e jornalística para esses pretensos artistas, de maneira a manter um mercado rentável e estabilizado. Apesar do discurso do “combate ao preconceito” associar os fenômenos popularescos à “expressão do povo pobre”, seis ídolos musicais e, de carona, subcelebridades e influenciadores digitais, estes no âmbito comportamental, se enriquecem mais do que os supostos aristocratas da Bossa Nova, alvo de ataques da intelectualidade “sem preconceitos”, mas bem mais preconceituosa do que negam ser.
O poderoso lobby que se formou, com extensão nos meios acadêmicos, para defender a cultura brega-popularesca, fez ampliar o mercado e os produtos, os chamados “artistas”. Enquanto muitos acreditam ou são levados a acreditar que se tratam de “expressões da população pobre ou das classes socialmente emergentes”, essa dita “cultura popular” na verdade expressa os interesses financeiros dos grupos empresariais envolvidos.
Até narrativas tentam desmentir a participação empresarial, como em uma entrevista recente de Fernanda Abreu, que disse que o “funk” fez sucesso “sem a ajuda de empresários”. Assim como, nos estabelecimentos comerciais durante o Natal, os ídolos popularescos precisam se vender como “anti-comerciais”, “autênticos” e até tratados como pretensamente vanguardistas, valendo qualquer pretexto que venha da imaginação fértil de seus empresários.
O caso João Gomes é um exemplo recente. Ídolo do piseiro, ele tem uma imagem trabalhada de forma diferente da do antecessor Wesley Safadão, este desgastado pelo apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e por acusações de envolvimento de esquema de apostas ilegais na Internet, tipo Jogo do Tigrinho ou as chamadas páginas de apostas, as bets.
Gomes tenta ser associado tendenciosamente às raízes do baião nordestino, não por um vínculo natural latente, mas como uma forma de um produto recente atrair um público que sente falta dos antigos cantores nordestinos.
Mas isso se trata de uma maneira forjada, calculada, apenas para atender à demanda de um público de elite que, aparentemente, sentia falta dos antigos cantores de baião, quando o nome "forró" era apenas uma denominação para festas populares nordestinas desde a Segunda Guerra Mundial, quando a presença de tropas estadunidenses no Rio Grande do Norte inspirava as populações locais a realizar festas com o aviso "for all", "para todo mundo", o que deu origem à forma aportuguesada hoje conhecida.
Artistas de MPB e Rock Brasil também participam de alguma forma do lobby popularesco, pois precisam penetrar em mercados que acabam sendo monopolizados pelos fenômenos popularescos locais. Há a defesa aberta, evidente, dos ídolos popularescos, e também uma participação mais ativa em duetos, além das covers de MPB que um ídolo popularesco, sozinho ou com um emepebista, interpretam no palco.
Tudo isso é negócio, pois se trata de uma propaganda para criar mercados ampliados para os ídolos popularescos, não se tratando da "natural expressão cultural das periferias". É tudo comércio e um discurso é montado mediante uma estratégia de linguagem que cria inverdades para forçar um público mais exigente a consumir o produto popularesco.
Empresas de entretenimento comandam o espetáculo, mas é preciso apelar para a ilusão. Daí que há um esforço de criar uma propaganda enganosa, definindo os ídolos popularescos como "genuinamente populares", provocando um vínculo artificial com o cotidiano das classes populares, mas também de classes um pouco mais remediadas, até chegar também às elites e, de preferência, a criar uma falsa reputação sofisticada para esses ídolos, quando eles se tornam veteranos.
Mas esse esforço todo de tentar naturalizar as coisas, além de não contribuir com a evolução da autêntica cultura musical e comportamental do Brasil, só serve mesmo para aumentar os lucros dos empresários envolvidos, que investem num lobby para que as coisas continuem como estão, só mudando quando o mercado pede para mudar. Como, por exemplo, trocar o americanizado forró-brega de Calcinha Preta e afins pelo piseiro politicamente correto de João Gomes. De qualquer maneira, é tudo negócio.
FONTES:
UOL, Carta Capital, O Globo, Blogue Linhaça Atômica.
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