Por Alexandre Figueiredo
Uma pesquisa feita por uma aluna de Doutorado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) fez uma descoberta histórica. O estudo apontou a área de um antigo cemitério de escravos situada sob o estacionamento da Pupileira, na Santa Casa de Misericórdia, localizada na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré, em Salvador. O autor deste texto já frequentou muito esse local, por conta de um plano de saúde da instituição.
A pesquisadora e arquiteta urbanista Silvana Olivieri fez um levantamento, em sua tese de Doutorado, sobre onde teria se localizado um cemitério onde teriam sido enterrados mais de 100 mil escravos. O local também teria fragmentos de objetos e porcelanas datados do século 19.
Silvana comparou mapas do tempo da escravidão com fotos de satélite atuais. Mapas de Salvador do século 18 foram pesquisados. A autora também estudou os artigos dos historiadores Braz do Amaral (1917) e Consuelo Pondé de Souza (1981) e um livro de 1862 do contador da Santa Casa, Antônio Joaquim Damázio, para orientar a pesquisa.
As escavações do estacionamento foram iniciadas em 14 de maio deste ano, e nelas foram encontrados fragmentos dos utensílios da época. No dia 24, foram encontradas as primeiras ossadas que seriam dos escravos enterrados no antigo cemitério. Segundo dados históricos, o cemitério teria sido inicialmente administrado pela Câmara Municipal de Salvador e, depois, da Santa Casa de Misericórdia.
O local chegou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos, por ter servido para sepultar corpos de escravos recém-chegados ao Brasil que haviam falecido. As escavações foram iniciadas após um ato interreligioso realizado em homenagem aos povos escravizados.
A escolha do dia 14 de maio remete à execução dos mártires da Revolta dos Malês, meses após a rebelião dos escravos malês, de religião muçulmana, ter sido reprimida em 1835. A revolta, marcada por intensa violência, teria abalado o sistema de valores escravista, contribuindo para seu declínio.
Acredita-se que vários integrantes da Revolta dos Malês teriam sido enterrados no local, que também teria sido local onde não apenas negros, mas também indígenas, teriam sido sepultados. Membros de outras revoltas, como Revolta dos Búzios e Revolução Pernambucana, também teriam sido enterrados no local.
O Ministério Público da Bahia (MP-BA) confirmou a descoberta e apresentou os resultados no último dia 21 de outubro, após reunião feita com representantes dos órgão junto a membros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), da Fundação Gregório de Matos (FGM) e do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC).
O IPHAN enviou um comunicado recomendando a Santa Casa que suspenda o uso do estacionamento até que as investigações sejam concluídas. Apesar da recomendação, o lugar continuou sendo utilizado para tal função. Enquanto isso, Silvana Olivieri protocolou um pedido para que o espaço se torne um patrimônio histórico sob o nome de "Sítio Arqueológico Cemitério dos Africanos".
FONTES: IPHAN, G1 Bahia, Jornal Farol da Bahia.
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