A DOLOROSA RESSACA DO PÓS-BREGA


Por Alexandre Figueiredo

Depois de 20 anos, quando se formou uma geração de intelectuais comprometida com a abordagem populista da bregalização cultural, a utopia por eles lançada decai, criando um clima de tristeza e de ressaca diante dos efeitos drásticos que a apologia à breguice trouxe para a realidade.

A utopia pressupunha que a defesa da bregalização cultural, inserindo seus valores e, sobretudo, seus ícones musicais, para um público considerado de melhor qualificação cultural, iria promover uma grande revolução cultural e uma ampla democratização e celebração da diversidade plena, com o diálogo entre a tradição e a vanguarda, o artístico e o comercial.

Isso tudo era promovido sob o pretexto do "combate ao preconceito", e a suposta celebração da diversidade cultural, querendo transformar meros fenômenos comerciais em supostos folclores do futuro, sob a desculpa de "fazerem parte" do cotidiano vivido pelas classes populares e "representar" seus anseios, frustrações e hábitos sociais.

Ultimamente, várias contradições vieram à tona diante desse discurso intelectual. O vínculo forçadamente progressista, por exemplo, a alguns ídolos "extremamente populares", no caso da música incluindo nomes como Banda Calypso, Zezé di Camargo & Luciano, Waldick Soriano (in memoriam) e o "funk carioca", foi desfeito quando eles passaram a expressar claramente o contexto conservador ligado à mídia hegemônica.

O próprio contexto do "popular demais" foi construído através das concessões de emissoras de rádio e televisão feitas durante o governo de José Sarney e cujo ministro das Comunicações era o baiano Antônio Carlos Magalhães, ele mesmo um dublê de "mecenas" ao apoiar abertamente a axé-music, ajudando-a a expandir sua popularidade durante os governos de Fernando Henrique Cardoso.

Essas concessões foram dadas a políticos e empresários "independentes" que se aliaram a Sarney e ACM, e tais favorecimentos foram feitos majoritariamente entre 1985 e 1987. No entanto, os efeitos dessa politicagem começaram a ser notados a partir do governo seguinte, de Fernando Collor de Mello, entre 1990 e 1992, quando se desenhou uma supremacia da breguice que havia desde os anos 1960, mas que só na década noventista se tornou hegemônica como paradigma de "cultura popular".

Embora seja uma concepção claramente comercial de "cultura popular" e abertamente relacionada a concepções estereotipadas estabelecidas pelos grupos de poder, para os quais o povo pobre era "portador" de qualidades sociais negativas ou inferiorizadas, associadas a aspectos miseráveis, pitorescos ou piegas, o discurso intelectual que prevaleceu, sobretudo, entre 2002 e 2016, mas já atuante antes e depois do período, dava uma falsa noção de "cultura libertária".

A "cultura" brega-popularesca (termo que reúne a "tradição" dos primeiros ídolos cafonas a uma grande linhagem que deles veio e que passou a nortear o "popular" desde então) foi adotada pela retórica intelectual através de uma apropriação de argumentos pós-tropicalistas, combinando "mau gosto" e "provocatividade" através do precedente do dueto entre Caetano Veloso e o ídolo cafona Odair José, no festival Phono 73, em 1973.

Criou-se uma utopia de que a supremacia do "mau gosto popular" iria trazer a almejada revolução social. É certo que a maioria dos intelectuais que defendeu a bregalização agiu por má-fé, estando a serviço, ainda que sem vínculo profissional, das corporações midiáticas brasileiras, sob a finalidade tanto de atender a interesses comerciais do "popular demais" quanto a estabelecer um controle social submetendo o povo pobre a representar uma imagem caricatural e pejorativa de si mesmo.

O não-vínculo profissional fez com que esses colaboradores informais da mídia hegemônica pudessem, com relativo êxito, expor seu discurso na mídia esquerdista, criando duas perspectivas dependendo da boa-fé ou da má-fé com que intelectuais, artistas, acadêmicos e produtores culturais defenderam a bregalização na cultura brasileira.

Os que faziam isso na má-fé, na tentativa de domesticar as massas populares, acreditavam que a bregalização poderia se tornar sustentável com as verbas estatais trazidas pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), por meio da Lei Rouanet e por iniciativa do Ministério da Cultura. Já quem agia na boa-fé acreditava que o "mau gosto popular" poderia evoluir para expressões culturais mais consistentes e viscerais, através do diálogo com a classe média.

Neste caso, destaca-se a ênfase da virada cultural, nome dado a um conjunto de palcos numa área de uma cidade, na qual diversas atrações para públicos específicos são agrupadas em cada espaço. Os defensores da bregalização viram na virada cultural uma forma de tirar ídolos bregas esquecidos do ostracismo, retomando o comercialismo musical dentro de um contexto "artisticamente mais relevante", consolidando o faturamento mercadológico de maneira mais estável.

Quem agia na boa-fé acreditava que a velha Cuba dos carros antigos, das casas sombrias, da velha boemia e de uma miséria e um atraso glamourizados era reproduzida nos cenários bregas de bares decadentes, prostíbulos, favelas, camelôs e pobres sorridentes. Uma narrativa da "pobreza legal" chegou a ser feita pelos programas apresentados pela atriz Regina Casé e produzidos pelo antropólogo Hermano Vianna, um dos propagandistas da bregalização cultural.

Neste caso, as pessoas que acreditavam na defesa da bregalização cultural por boa-fé achavam que o vínculo com a mídia hegemônica era "mera coincidência", um simples meio para fazer "enfrentamento" e obter visibilidade. Era uma visão ingênua na qual se supunha não haver relação entre o comercialismo brega-popularesco e o poder da mídia hegemônica.

RETROCESSOS SOCIAIS

Todo esse discurso foi por água abaixo por uma série de incidentes ocorridos a partir de 2014. Aparentemente, mesmo as grandes manifestações ocorridas desde 2013 pareciam, sob o ponto de vista dos defensores da bregalização cultural, não incomodá-los, e eles até viam a possibilidade de colocar o ativismo como pretexto para a imagem pretensamente libertária dos fenômenos "populares demais".

É como se vê no caso das mulheres siliconadas, que de forma bastante estranha expressavam um suposto feminismo, num maniqueísmo entre o machismo doméstico das "escravas do lar" e o machismo recreativo das "mulheres-objetos", este erroneamente definido como "feminista" apenas pelo aspecto aparente das mulheres não estarem associadas a um marido ou namorado.

Outro aspecto era o "funk", um ritmo dançante comercial que se tornou o carro-chefe de todo o discurso de defesa da bregalização cultural, e que buscava construir uma narrativa de "ativismo cultural", "rebelião popular" e "vanguarda artística", verossímil mas sem correspondência com a realidade sonora e comportamental do gênero.

O "funk" tentou se inserir no contexto das manifestações de 2013-2014 - que mais tarde se derivou nos protestos dos "coxinhas" que derrubaram Dilma Rousseff - no modismo dos "rolezinhos", quando jovens suburbanos que ouviam o gênero passaram a frequentar shopping centers, usando como gancho o "funk ostentação", variante paulista do "funk carioca" que faz apologia do consumismo.

Os primeiros retrocessos apareceram para frustrar a campanha da bregalização cultural, que sempre tentava passar uma imagem de "libertária" e "progressista". Vários artistas "sertanejos" e até da MPB que apoiavam o "funk", como Fernanda Abreu, apareceram apoiando a campanha do senador Aécio Neves para a Presidência da República, em 2014. Nessa época, o funqueiro MC Guimê ganhou capa e matéria elogiosa na reacionária revista Veja, do Grupo Abril.

Derrotado Aécio Neves, ele fez parte de uma grande articulação que mobilizou uma parcela das elites brasileiras para fazer desgastar a imagem pública da presidenta Dilma Rousseff e ceifar seu governo, mediante acusações vagas e sem provas, mas defendidas com radicalismo pela grande mídia.

Em um dos últimos atos tendenciosos, o "funk" - que, de maneira extra-oficial, é revelado como um ritmo associado à mídia hegemônica - tentou uma pretensa solidariedade aos petistas, quando a Furacão 2000, estranhamente, acertou um "baile funk" durante a manifestação da Frente Brasil Popular. É a mesma equipe de som que, anos antes, havia escolhido Luciano Huck, apresentador da Rede Globo, filiado ao PSDB e amigo de Aécio Neves, como "embaixador" do gênero.

A "solidariedade" deu certo, não para os petistas. O "baile funk", realizado em Copacabana, Rio de Janeiro, amenizou o teor das manifestações e colocou em segundo plano o propósito de protestar contra a votação de abertura do impeachment da presidenta Dilma, em 17 de abril de 2016. O "funk" favoreceu mais os opositores de Dilma do que os defensores, "distraídos" demais com a festa.

E aí ocorreram vários processos que fizeram Dilma perder o mandato como a água escorrendo pelos dedos. Enquanto isso, as elites retomaram o poder, com o então vice-presidente Michel Temer traindo a titular e defendendo um projeto político retrógrado, comprometido com o desmonte dos direitos trabalhistas e do patrimônio econômico brasileiro.

Passados os meses, o presidente Michel Temer sai fortalecido quando a apatia popular, muito diferente do ódio anti-petista de 2016, e a tão sonhada "revolução" da bregalização cultural foi por água abaixo. Quem acreditava nessa utopia se decepcionou ao ver que, em vez de uma ampla diversidade cultural, só restou, no mainstream, a supremacia do brega-popularesco e os medalhões da MPB e Rock Brasil deixados em segundo plano.

Com o falecimento gradual de veteranos emepebistas, como Emílio Santiago, Selma Reis, Jair Rodrigues, Fernando Brant, Vander Lee, Belchior e Luiz Melodia, se constatou uma frustração com o fato dos nomes que hoje oficialmente representam a "nova música brasileira", mesmo os ídolos brega-popularescos, nem de longe representam a mesma essência artística dos cantores, músicos e compositores finados.

Denúncias relacionadas a irregularidades trabalhistas na axé-music e no "forró eletrônico", a banalização do "sertanejo universitário" e suas letras que exaltam a bebedeira, as mulheres siliconadas que mais estimulam do que inibem os impulsos machistas, e o reacionarismo nas mídias sociais de um público que defende valores musicais e comportamentais popularescos refletiram na decepção da classe intelectualizada e no declínio das apologias à bregalização.

Quem apostou na bregalização por má-fé acabou vendo os problemas do mercado e as disputas em torno das verbas estatais da Lei Rouanet, além dos problemas nas organizações das viradas culturais, e as manobras do poder midiático.

Junte-se a isso a situação do contexto sócio-político mais retrógrado, com Michel Temer impondo propostas socialmente excludentes e jovens supostamente modernos defendendo o autoritário Jair Bolsonaro, e se vê o quanto a festa brega-popularesca resultou numa grande ressaca do pós-brega, quando o sonho de uma ampla revolução cultural se reduziu à mesmice do comercialismo reinante.

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