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IPHAN ABRE NOVAS VAGAS. E QUANDO VIRÁ UM NOVO CONCURSO?


Por Alexandre Figueiredo

No ano que vem, fará dez anos que o IPHAN recebeu autorização do Congresso Nacional para abrir um novo concurso, o primeiro a ser realizado depois de sancionado o Decreto 3.551, que regulamenta os bens culturais imateriais.

Atualmente, corre a notícia apenas que o Congresso Nacional autorizou a abertura de novas 

Fora o concurso realizado em 2005, sob a organização da UFRJ, que, com todas as suas falhas, enfatizava os assuntos referentes às especialidades do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, os demais concursos pouco exigiram dos candidatos tais habilidades.

Os concursos mais recentes, a partir do de 2007, referente ao PAC das Cidades Históricas, e incluindo o de 2009, para seleção geral, o que se viu foi um programa que priorizava mais assuntos de natureza matemática, ainda que seja apenas raciocínio lógico-quantitativo, sem relação direta com as atribuições do IPHAN.

Embora se exija um rigor de estudo para concursos e as provas não devam ser muito fáceis, mesmo assim seus programas deveriam se adequar à natureza do cargo envolvido, sem que se adotem pretextos de moralismo acadêmico desses que valorizam os estudos tão somente pela dificuldade de aprendizado.

Pois esse moralismo, tão conhecido nas antigas famílias, valorizava a Educação como um mero acúmulo de saber, sem que houvesse um desenvolvimento qualitativo daquilo que é aprendido. E esse moralismo, junto a critérios de caráter tecnocrático, pregava que quanto mais difícil o tema para estudo, inclusive Ciências Exatas, "mais valorizado" seria o estudioso de tais matérias.

Graças a esse moralismo, a exigência de Matemática e outras ciências do tipo em processos de seleção, mesmo sem que tais matérias tenham alguma serventia nas profissões, tornou-se um triunfo que mais parece alimentar as vaidades pessoais de acadêmicos e organizadores de provas seletivas do que exigir um melhor aprendizado dos candidatos.

A grande preocupação é se o futuro concurso do IPHAN, do qual parece ser época próxima para sua realização, se notarmos o natural rodízio de servidores, já que vários acabam se aposentando ou outros deixando vaga de alguma forma, irá manter as exigências matemáticas que destoam da natureza profissional da instituição.

A ênfase das seleções do IPHAN deveria ser para assuntos ligados a patrimônio. Um pouco de antropologia, história da arquitetura, patrimônio material e imaterial, sociologia, história das mentalidades, história geral, folclore e por aí  vai.

O concurso de 2009 exigiu pouco dessas áreas. Muito, muito pouco. Enquanto isso, exigiu muitas questões de Raciocínio Lógico-Quantitativo. A pouco experiente organizadora Universa preferiu copiar a tendência do rígido ESAF - que exige Matemática em tudo quanto é concurso, sem verificar se a matéria é ou não supérflua - , em vez de aperfeiçoar o programa da UFRJ em 2005.

Para que servirá para o IPHAN um servidor que está mais preparado para saber os embaralhados problemas de lógica e pouco provou se sabe ou não dos assuntos referentes às especialidades do trabalho da instituição?

Será que um cidadão que sabe se fulano faz ou não algo se sicrano também faz ou beltrano não quer fazer mas só fará se o zé da esquina não faz o mesmo que sicrano, nesses problemas embaralhados de lógica, poderá lidar com os desafios do patrimônio histórico, artístico e nacional existentes no país?

Se por exemplo objetos artísticos guardados no museu são roubados, para que servirão os cálculos matemáticos que medem, por exemplo, a idade que Huguinho, Zezinho e Luisinho terão cuja soma dará o número de 93?

E se ocorre um desabamento num prédio histórico abandonado, apesar de tombado pelo IPHAN, adiantará fulano ter tirado de letra o cálculo sobre qual ponto de uma rodovia se encontrarão duas linhas que ligam as mesmas cidades em percursos que duram intervalos diferentes de tempo?

E, para avaliar um inventário de um fenômeno cultural de alguma cidade do interior, seria necessário um impecável entendimento de fórmulas matemáticas, equações de segundo grau, fórmulas aritméticas ou trigonometria, apenas para entender a natureza sociológica e histórica de determinado movimento cultural?

Muitos concursos para outras instituições já corrigiram o quadro programático, tirando matérias ligadas à Matemática para cargos que não precisam delas. Espera-se que o mesmo seja feito no próximo concurso do IPHAN, para que possa receber, já a partir dessa seleção, cidadãos identificados e preparados para a desafiadora tarefa de lidar com nosso patrimônio cultural.

Assim, até mesmo os cursos de reciclagem que o IPHAN faz com seus servidores ganharia uma vantagem, de reduzir o risco de virar um curso de patrimônio para semi-leigos e ser um curso para aperfeiçoamento e reciclagem de quem já entende profundamente o assunto.

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