110 ANOS DE RODRIGO



Por Alexandre Figueiredo

Foram 30 anos como diretor-geral do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Mas seu envolvimento na trajetória do SPHAN foi maior, se contarmos o ano em que a instituição funcionou como órgão provisório, em 1936, e o pouco mais de um ano como integrante do Conselho Consultivo.

Pois foi entre 1936 e 1969 o envolvimento do advogado e jornalista Rodrigo Melo Franco de Andrade com o SPHAN. Do convite para organizar a instituição, em 1936, até seu falecimento, em maio de 1969, Rodrigo participou ativamente de todo o processo de preservar, o máximo e o melhor possível, o legado histórico e cultural do Brasil, a maior parte do tempo como diretor-geral da instituição.

Rodrigo nasceu em 17 de agosto de 1898, na então novata cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Foi o primogênito do professor de Direito Criminal e procurador seccional da República, Rodrigo Bretas de Andrade, e sua esposa Dália Melo Franco de Andrade. Do lado paterno, possui ascendentes na região de Ouro Preto, tendo sido o diretor-geral do SPHAN bisneto de Rodrigo José Ferreira Bretas, o primeiro biógrafo de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Do lado materno, descendeu da família Melo Franco, enraizada em Paracatu, no interior mineiro, da qual pertenceram Francisco de Melo Franco, que escreveu o primeiro livro sobre higiene publicado em língua portuguesa, e o tio de Rodrigo, o escritor regionalista Afonso Arinos de Melo Franco, pai dos políticos Virgílio e Afonso Arinos.

Órfão de pai aos três anos de idade, Rodrigo tornou-se mais próximo da família do tio e dos primos. Nesse ambiente, ele se alfabetizou em casa, e conheceu os clássicos da literatura, além da poesia simbolista, a sua preferida. Aos 12 anos, passa a viver na casa do tio Afonso Arinos, em Paris. Na capital francesa, continua o curso secundário, iniciado no Brasil, no Lycée Janson de Sailly. Sendo Afonso um intelectual prestigiado, que recebia em sua residência parisiense os intelectuais brasileiros que por lá passaram, Rodrigo aproveitava o convívio com essas personalidades da vida literária e política brasileiras. Conheceu o escritor Graça Aranha, famoso pelo seu livro Canaã e pelo aval dado aos modernistas de 1922. Tornou-se amigo, também, do escritor Alceu Amoroso Lima, antes deste se converter ao catolicismo militante junto a Jackson de Figueiredo.

Voltando ao Brasil, Rodrigo Melo Franco deu início ao curso de Direito na extinta Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. As mudanças constantes de residência fizeram com que, nesta faculdade, Rodrigo cursasse apenas o primeiro e o quinto anos. O segundo e o quarto anos ele fez na sua terra natal, enquanto o terceiro ano foi feito em São Paulo. Essa mudança de cidades foi positiva para Rodrigo, que desse modo conheceu a vida intelectual desses lugares.

É através desse círculo social que Rodrigo inicia sua atividade jornalística, numa época em que a imprensa, então uma "jovem" de pouco mais de cem anos, era composta não de formandos em Jornalismo, pois não havia faculdades dessa área, mas por pessoas formadas em Direito e Medicina ou personalidades literárias. Rodrigo iniciou suas atividades no Rio de Janeiro, em 1921, como colaborador do jornal O Dia, que não tem a menor relação com o jornal homônimo que hoje está em circulação. Pelo contrário, o jornal em que Rodrigo trabalhou, que tinha seu primo Virgílio integrando a equipe de diretores, teve vida curta, naqueles idos dos anos 1920.

Em 1922, Rodrigo Melo Franco inicia sua amizade com os intelectuais do movimento modernista, em especial o escritor Mário de Andrade. Rodrigo logo se identifica com a causa. Em 1926, Rodrigo torna-se redator-chefe da Revista do Brasil, depois que o empresário Assis Chateaubriand adquiriu o periódico do escritor e empresário Monteiro Lobato. Sob o comando de Rodrigo Melo Franco, a Revista do Brasil transformou-se num instrumento expressivo de manifestação dos ideais modernistas que desafiaram os valores academicistas dominantes, apesar da própria cúpula da revista ser de tendência acadêmica, como Afrânio Peixoto e Pandiá Calógeras e Plínio Barreto. Nesta fase, com Rodrigo na chefia de redação, a revista produziu dez números.

Rodrigo também exercia eventual atividade literária. Sendo um poeta bissexto, ele publicou na revista Estética, em 1925, o poema "Ode pessimista", dotado do senso de humor modernista. Em 1936 lançou seu livro de crônicos, Velórios, com histórias de ficção de temática funebre. Fora isso, se destacou mais como jornalista, mas mesmo assim escrevendo sobre diversos assuntos, da política à caricatura. Um dos artigos, Um leader que faltou, ele comenta que, num texto publicado na época da República Velha, que a linguagem caricatural é mais eficaz na crítica à realidade política do que os longos artigos e discursos prevalecentes então.

Concilia suas atividades jornalísticas com a de advogado, trabalhando no escritório dos seus tios Afrânio e João de Melo Franco. Em 1930, ao jornalismo acumula também a função de chefe de gabinete do então recém-formado Ministério da Educação e Saúde do governo "provisório" de Getúlio Vargas, cujo titular era Francisco Campos. Ocupa o cargo durante cinco meses e indica o nome do amigo e arquiteto Lúcio Costa para dirigir a Escola Nacional de Belas Artes. Depois, Rodrigo se torna, num breve período, chefe de gabinete do secretário-geral de Viação e Obras da prefeitura do município do Rio de Janeiro, Mário Machado.

A amizade com os modernistas gerou outro grande fruto. Os poetas do movimento, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, indicaram ao ministro da Educação e Saúde, o nome de Rodrigo de Melo Franco para organizar e dirigir a nova entidade destinada a cuidar do patrimônio cultural brasileiro. Em abril de 1936, surge então, a princípio como um órgão experimental, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o SPHAN, cuja estrutura foi inicialmente concebida principalmente por Mário de Andrade e Rodrigo.

Nesta fase inicial, anterior à fundação oficial do SPHAN, que foi em janeiro de 1937, Rodrigo usa de toda sua experiência com o assunto da Cultura para escrever, junto a Mário de Andrade, a legislação específica da entidade. Rodrigo realiza programas de treinamento de técnicos, coordena trabalhos de recuperação das instalações do SPHAN, empreende disputas judiciais, se empenha pela sobrevivência institucional da entidade, e se esforça em promover, no Brasil e no exterior, uma consciência nacional de preservação do patrimônio cultural do país.

Entre os inúmeros colaboradores diretos e indiretos que Rodrigo contou no SPHAN, nesta primeira fase da instituição, estão diversos intelectuais renomados do país, como Oscar Niemeyer, Luiz de Castro Faria, Sérgio Buarque de Holanda, Heloísa Alberto Torres, Vinícius de Morais, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Renato Soeiro e Lúcio Costa.

A trajetória do SPHAN, desde o começo, foi difícil. O projeto original, que seria mais audacioso, incluindo as pesquisas detalhadas de Mário de Andrade sobre os movimentos de música popular regionais, encontrou sérias limitações políticas e econômicas. Rodrigo preferiu que a ênfase do SPHAN se voltasse para os monumentos e objetos históricos, por dois motivos. Primeiro, porque o Governo Federal, iniciando a fase do Estado Novo, desenvolvia uma campanha de afirmação do Nacionalismo brasileiro, sendo necessário apontar referenciais históricos para este propósito, preservando sítios e objetos do passado de nosso país. E, segundo, porque diante da limitação de recursos, toma-se como prioridade a preservação de sítios históricos de maior relevância e de objetos que corriam o risco de serem roubados ou desaparecidos de outra forma, uma das preocupações que, naquela época, já eram bastante antigas e que havia inspirado tentativas regionais de salvar o patrimônio, uma década antes do SPHAN.

As limitações influíram até no trabalho da instituição. Segundo Lúcio Costa, "havia altos e baixos na dedicação às tarefas. Éramos todos ao mesmo tempo dedicados e relapsos, e o peso maior da carga recaía no sempre presente diretor, que se criou uma espécie de bolsa particular de valores onde registrava, no trato, a cotação periódica de cada um. E era comovente de ver-se, como, depois de semanas e meses negativos, bastava o mínimo favor de um curto período de interesse e dedicação, e a cotação registrava logo uma espetacular ascensão. Assim, ele passava do maior pessimismo e total descrença, a uma generosa e desmedida confiança nas pessoas e suas intenções".

Rubem Braga também faz observação semelhante. Diz o célebre cronista, sobre a reunião de 18 de abril de 1956, data de comemoração dos 20 anos de implantação do SPHAN: "Rodrigo mandou chamar alguns de seus funcionários, e eu me meti no meio deles. Não houve docinhos nem beberete; nem sequer uma flor. O que os funcionários ouviram foi um grave e delicado 'pito' e um apelo para que trabalhassem mais. Nenhum se queixou depois; todos ficaram comovidos porque o funcionário que Rodrigo mais censurou foi ele mesmo, o chefe. (...) Depois de historiar, com áspera modéstia, o que o Serviço fez nestes 20 anos, Rodrigo fez a lista das coisas que se devia ter feito e não se fez e acusou disso em primeiro lugar a ele, chefe".

Nem sempre a sociedade respaldava o SPHAN. Ao longo dos anos, a maior dificuldade da instituição é quanto à preservação na prática de todos os bens preservados, na recuperação de peças históricas desaparecidas e nas tentativas de evitar o avanço da especulação imobiliária sobre sítios históricos. Vitórias foram conseguidas, mas também derrotas, em outros momentos, foram obtidas. Até em Ouro Preto já houve o risco de surgirem construções a ameaçar a sobrevida dos prédios históricos. Uma rotina que continua a desafiar os técnicos do patrimônio histórico e causam polêmica devido ao conflito entre o progresso urbano e a memória histórica.

Como diretor-geral do Patrimônio Histórico de Artístico Nacional, Rodrigo Melo Franco vivenciou duas ditaduras, a do Estado Novo que inaugurou o SPHAN e a militar iniciada em 1964. Rodrigo também vivenciou a época da promulgação de uma Constituição, a de 1946, que inclui artigos sobre o patrimônio histórico. Ele também encarou duas grandes perdas diretamente ligadas ao órgão, a morte de Mário de Andrade, em 1945 - Mário acompanhou muito a chamada "fase áurea" do SPHAN - , e a de Getúlio Vargas, em 1954. O SPHAN mudou seu nome para DPHAN, em 1946, quando da atividade de Rodrigo. Dentro desse período em que Rodrigo estava à frente da instituição, o Brasil mudou de capital do Rio de Janeiro para Brasília. E, sob sua direção no SPHAN, uma outra legislação para o órgão foi criada, desta vez dedicada ao tema dos sítios e vestígios arqueológicos.

Sentindo suas limitações físicas já no início dos anos 60, Rodrigo só conseguiu a esperada aposentadoria em 1967. Mesmo assim, seu envolvimento com o patrimônio histórico continuou, como membro do Conselho Consultivo da instituição. O próprio Rodrigo escolheu o arquiteto Renato Soeiro, um de seus funcionários, como seu sucessor, grato pela dedicação de Soeiro à instituição. Rodrigo ainda dava depoimentos à imprensa, nos últimos meses de vida, e chegou a se envolver numa polêmica causada pelo arquiteto Augusto de Lima Jr., que acusou o então DPHAN de irregularidades, imediatamente desmentidas por Rodrigo.

Quando Rodrigo faleceu, no ano de 1969, seu filho mais famoso, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, lançava o filme Macunaíma. Expoente do Cinema Novo e tendo colaborado com os Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes, Joaquim se lembrou do famoso livro do amigo e parceiro de seu pai, Mário de Andrade, para adaptá-lo à tela. Procurando desenvolver um diálogo entre os referenciais da geração de seu pai e os jovens, Joaquim Pedro não conseguiu realizar a adaptação para a tela do livro Casa Grande & Senzala, de outro amigo de Rodrigo, Gilberto Freyre, porque o cineasta, doente, faleceu em 1988.

Os desafios que o IPHAN enfrenta hoje, mais de setenta anos depois de fundado, não diferem muito dos desafios do tempo de Rodrigo Melo Franco. O Brasil dos primórdios do SPHAN mudou completamente, mas a instituição, com suas mudanças de nome, segue com a mesma missão e problemas semelhantes, como o risco de perda do patrimônio e a precária consciência patrimonial dos brasileiros. Pelo menos o hoje IPHAN conquistou uma reputação notável, o que foi possível com a paciente e batalhadora atuação de Rodrigo, que ainda teve a sorte de fazer parte de uma grande e atuante geração de intelectuais brasileiros, muitos hoje desaparecidos, mas que deixaram sua marca nas instituições brasileiras, apesar da lacuna irreparável que eles fazem hoje na sociedade marcada pelo entretenimento sem proveito social e pela memória curta dos mais jovens. A luta continua, depois de 110 anos de Rodrigo, a serem lembrados este mês.

FONTES: CPDOC - Fundação Getúlio Vargas, Portal Viva Brazil, Wikipedia.

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. Rodrigo e o SPHAN: coletânea de textos sobre o patrimônio cultural. Rio de Janeiro: SPHAN/Pró-Memória, 1987.

ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. Rodrigo e Seus Tempos: coletânea de textos sobre artes e letras. Rio de Janeiro: SPHAN/Pró-Memória, 1985.

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