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A ESTRANHA INTERVENÇÃO EMPRESARIAL NA CULTURA ROCK DO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo 

O fenômeno da intervenção empresarial na cultura rock brasileira é visto oficialmente como uma medida para torná-la economicamente viável e sustentável, financiando carreiras e movimentando a popularidade. A princípio, nada demais, mas a intervenção empresarial está se tornando cada vez mais explícita e bastante preocupante.

Desde os anos 1990, a cultura rock foi sabotada. Rádios realmente especializadas em rock desapareceram, enquanto rádios comerciais, que na prática eram apenas rádios pop que tocavam rock mas não tinham linguagem nem perfil diferenciado, ocuparam lugar no dial.

Isso fez uma diferença bastante negativa na divulgação do rock nacional e internacional no Brasil. Vertentes como o rock progressivo foram discriminadas. Outras, como o shoegaze, sofreram discriminação. O rock alternativo em geral

Enquanto isso, um excedente de locutores pop, sem intimidade com o rock, ocuparam a programação diária se comportando como animadores de gincanas infanto-juvenis, mais preocupados em sortear prêmios e ingressos e fazer quizes do que em divulgar “algo mais” do que o raquítico repertório de sucessos do rock que as ditas “rádios rock” têm coragem e disposição para tocar.

Sim, as chamadas “rádios rock” não tocam sequer o básico da trajetória do rock como um todo. Elas só tocam os hits, no máximo seis músicas bastante conhecidas ou, no máximo, vinte músicas de bandas muito veteranas, com mais de 40 anos de estrada. E, apesar da retórica de “24 horas de puro rock’n'roll “, somente nas noites dos dias úteis e no fim de tarde dos fins de semana é que há programas específicos realmente de rock, que não chegam a somar 20 horas semanais.

Isso é apenas a parte mais ostensiva de um mercado de “cultura rock” que só serve para animar pessoas muito ricas que só cantam canções como “Que País é Esse?” sem sentir realmente a letra. Na prática, o rock acaba sofrendo uma sabotagem cultural, que vai muito mais contra o gênero do que a favor dele.

Enquanto o rock, no Brasil, foi passado para trás pela música brega-popularesca no gosto central do público juvenil, o mercado tenta fazer crer que o gênero estrangeiro continua em alta no Brasil, mas a própria intervenção empresarial torna-se preocupante e ameaçadora à criatividade dos músicos e do público. A roupagem roqueira é reciclada, mas o estado de espírito do rock continua morto.

A coisa chega ao ponto de haver “consultorias” que prometem a “fórmula do sucesso” do rock, que não obstante determinam padrões de acordo com fórmulas vigentes desde os anos 1990. Nestas consultorias, o rock é visto claramente como um negócio e o tratamento é comparável ao de um reality show musical, quando até a forma de gesticular no palco é calculada conforme um padrão consagrado de performance.

Isso acaba criando roqueiros de proveta, tão artificiais quanto bandas criadas por empresários, como The Clevel Band, ou por Inteligência Artificial, como o Velvet Sundown. Tudo muito planejado e embalado para tocar em grandes festivais de rock, mas muito técnico e sem um pingo de emoção.

A cultura rock no Brasil chegou a esse ponto de ser comandada por uma elite empresarial cujo conhecimento do gênero é superficial, precário e pedante, mas que tenta se impor como verdade absoluta. Para piorar, esse tipo de abordagem é blindado por internautas temperamentais, que se irritam diante da menor discordância e não raro partem para ofensas e xingações.

Com exemplos assim e uma lógica meramente comercial do rock, é assustador que também haja uma campanha para boicotar qualquer texto que reprovasse essa abordagem do rock, sob a mesma desculpa da “viabilidade econômica”. 

Em outras palavras, não se pode criticar a logística que o mercado determina para a cultura rock no Brasil. Rádios comerciais sem gente especializada na programação diária, shows internacionais caros que prejudicam o orçamento dos fãs brasileiros e consultorias que acabam produzindo bandas de laboratório. E não podemos criticar esse meio em que a Faria Lima sequestrou nossas guitarras. A música brega-popularesca agradece.

FONTES: UOL, Terra Diversão, Rolling Stone Brasil, Blogue Linhaça Atômica.

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