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A HERANÇA DO IPES-IBAD NO BRASIL DE HOJE


Por Alexandre Figueiredo 

O IPES-IBAD, a dupla de institutos de fachada que se tornou um think tank crucial para o golpe civil-militar de 1964, continua vivo no seu legado atual. As gerações que descenderam dos ideólogos que se envolveram com estas instituições hoje apoiam Lula, dentro de uma linha do tempo que mostrou a complexidade das conveniências que fizeram com que aqueles que pediram a queda de Jango verem seus netos defendendo a reeleição de Lula.

Para quem não sabe, os dois “institutos” se chamavam Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES, apelidado informalmente de “ipês”, fazendo trocadilho com uma famosa árvore) e Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). O IBAD é mais antigo, surgido em 1959. O IPES surgiu dois anos depois, em 1961.

Ambos haviam sido movimentos empresariais e inicialmente foram fundados de maneira independente. O IBAD foi fundado por Ivan Hasslocher, Gilbert Huber Jr. (conhecido pelo famoso catálogo telefônico Páginas Amarelas), Glycon de Paiva e Paulo Ayres Filho. O IPES foi fundado por Augusto Trajano de Azevedo Antunes (ligado à Caemi Mineração) e Antônio Gallotti (ligado à Light S.A.).

A ação desses dois think tanks, precursores de organizações recentes como o Instituto Millenium e a Esfera Brasil, era criar um verniz intelectual para a defesa dos valores conservadores ameaçados, na época, pelos governos progressistas de Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Artigos de jornais, debates e livros foram os principais meios de divulgação, antecipando o método de argumentação pretensamente “imparcial” que depois faria parte do contexto “democrático”, atingindo até setores de esquerda. Mas, na época, o contexto era abertamente de direita e voltado a defender o fim do governo João Goulart, acusado de ser comunista.

Denúncias de que as duas instituições estariam sendo financiadas pelo governo dos EUA e por empresas estrangeiras, estadunidenses e europeias, com filiais no Brasil não tardaram a aparecer. Mas somente o IBAD foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito e a instituição teve que ser extinta em 1963.

O IPES, ou “ipês”, sobreviveu e atuou com seu aparato “científico”, para defender o golpe civil-militar de 1964, liderando uma mobilização que culminou na série Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, cujo principal evento foi realizado no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março de 1964.

Ocorrido o golpe civil-militar e efetivada a ditadura - consolidada através do quinto Ato Institucional, o AI-5, em 13 de dezembro de 1968 - , o IPES permaneceu ativo até 1973, ano em que o período econômico chamado de “milagre brasileiro”, um progresso econômico que só beneficiou as elites, sofreu uma crise devido a alta do preço do petróleo no Oriente Médio, que causou um colapso na economia mundial da época.

THINK TANK DIVERSIFICA SUA INFLUÊNCIA 

O AI-5, ato que permitiu à ditadura militar se tornar mais repressiva, também enfrentou sua crise com os excessos e a violência extrema do DOI-CODI, sigla de reputação sombria que quer dizer Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, que causou indignação na própria ditadura com o assassinato do moderado jornalista Vladimir Herzog, que estava preso.

A crise do poder ditatorial fez o poder civil que sustentava a ditadura necessitar de novas estratégias para aliviar a repressão e a censura para evitar tensões sociais e manter os privilégios das classes dominantes. 

A ditadura militar, oficialmente, decidiu promover a distensão, embora mantivesse, até 1978, a vigência do AI-5, e a Censura Federal só acabou em 1988. No entanto, a repressão nos porões da ditadura continuaram e a liberação da expressão tonha caráter anestesiante, com o estímulo à erotização (pornochanchadas, financiadas pela estatal Embrafilme, e as revistas de pornografia, além do fenômeno sexualizado da cantora brega Gretchen), para pobres e jovens, e à religiosidade tradicional, por parte dos mais velhos, divididos entre um evangelismo fechado das seitas neopentecostais e o medievalismo disfarçado de ecumenismo do Espiritismo brasileiro.

A bregalização cultural era também o meio do poder midiático transformar o povo pobre em uma caricatura, ao mesmo tempo em que induzia as classes populares a se autoafirmar através dessa caricatura, através do poder midiático e,nos últimos anos, da tendenciosa campanha do “combate ao preconceito” das elites intelectuais.

A manipulação deixava de ter um viés meramente político e econômico para se tornar também cultural, não apenas o sentido de “cultura” restrito a mera propaganda política, como a que foi feita pelos fascistas, mas por meio de atrações de entretenimento, como música, comédia e outras modalidades.

Muitas pessoas estranham que haja um processo de dominação desse sistema através de atrações e fenômenos que parecem agradáveis, mas a metáfora da isca pode explicar bem o esquema. Numa pesca, ninguém coloca como isca aquilo que repudia ou agride um peixe, mas aquilo que o agrada e o atrai. Daí a bregalização cultural e o obscurantismo religioso servirem de meios de anestesias socioculturais, difundidos de forma tão engenhosa durante a ditadura militar que elas sobreviveram até durante os governos do PT.

A Faria Lima, a elite empresarial sediada em São Paulo, tornou-se um think tank informal - apesar das eventuais agremiações como Instituto Millenium, Renova BR e Esfera Brasil - , dedicado a desenvolver um padrão de comportamento e de modos de vida que protejam os interesses das elites e estabeleçam um limitado rol de benefícios sociais para os brasileiros, limitando a justiça social a ações paliativas.

Desse modo, foi possível, com as transformações das relações sociopolíticas, fazer com que os descendentes da geração IPES-IBAD mudassem a bússola política, passando da oposição ao apoio condicionado à centro-esquerda, na medida em que o presidente Lula tornou-se mais moderado que João Goulart no passado. Hoje Lula está mais próximo das forças neoliberais do que de sua já moderada origem sindical, o que faz a Faria Lima, mesmo de forma oculta às narrativas oficiais, apoiar de forma entusiasmada o petista.

A INFLUÊNCIA DO IPES-IBAD E SEU LEGADO 

O legado do IPES-IBAD na atualidade se expandiu de forma que parece difícil para o senso comum admitir isso. Mas elementos como a restrição à qualidade de vida, o antendimento aos interesses empresariais e a narrativa pretensamente racional, como nas velhas pregações dos antigos “institutos”, se espalharam em fenômenos e iniciativas que parecem voltados, em tese, ao interesse público.

A Faria Lima, com suas relações com o poder midiático, com instituições assistencialistas, com a mídia, a política e a indústria do entretenimento, estabelecem paradigmas ainda mais sutis que traduzem a herança dos dois “institutos” para além de meras finalidades políticas e da ideologia estritamente de direita, sobrevivendo no atual contexto do governo Lula e conquistando setores médios da centro-esquerda.

A aparente mudança de orientação está no fato de que a maioria da esquerda, a que se envolve diretamente com lideranças como Lula, amenizou seu projeto político, rompendo com paradigmas simbólicos dos tempos anteriores ao golpe de 1064. Isso permitiu que a direita moderada passasse a apoiar Lula e permitir que uma parcela das esquerdas acolhesse, em parte,o legado logístico do IPES-IBAD. A flexibilidade e o caráter conciliador fizeram o caráter golpista original das duas instituições se converter numa racionalidade e, recentemente, em estratégias mais modernas de consolidação de seus interesses, adaptados a novos contextos sociais.

Aqui estão as iniciativas e os fenômenos que herdaram os métodos dos dois “institutos”:

89 FM - Controlada pela família Camargo, ligada ao ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf - ele mesmo um colaborador do IPES-IBAD - e, portanto, apoiadora da ditadura militar, a rádio 89 FM, da capital paulista, se dedicou a domesticar a cultura rock de forma a reduzir seu nível de rebeldia e sua relevância musical e cultural, rebaixando o gênero a uma mera mercadoria que alimenta grande parte da indústria de shows estrangeiros realizados no Brasil. No Rio de Janeiro, a Rádio Cidade também se destaca, a partir dos anos 1990, às mesmas finalidades.

ESPIRITISMO BRASILEIRO - Religião que participou das “marchas da família” que derrubaram João Goulart, o “Espiritismo à brasileira”, na verdade, é uma forma repaginada do velho Catolicismo medieval jesuíta que vigorou no Brasil durante o período colonial. Seu maior expoente foi um “médium” atuante no Triângulo Mineiro que havia trabalhado para grandes fazendeiros da região e que tinha ideias ultraconservadoras. O Espiritismo brasileiro também foi uma das religiões patrocinadas pela ditadura para combater, pela concorrência, a Teologia da Libertação católica, que se mostrava como uma força internacional de oposição ao poder ditatorial. O verniz de “racionalidade” e a blindagem da imprensa, da Justiça e dos meios acadêmicos ao Espiritismo brasileiro e seu principal expoente seguem a mesma lógica de engajamento vista nas atuações do IPES-IBAD.

SISTEMA DE ÔNIBUS PADRONIZADOS - implantado em Curitiba pelo então prefeito biônico (nomeado pela ditadura) Jaime Lerner, o sistema de ônibus padronizados é em si um “IPES-IBAD sobre rodas”, marcado por medidas que mais protegem os interesses empresariais do que o interesse público. Apesar de ter algumas virtudes no que se diz ao planejamento da mobilidade urbana, a maioria de suas medidas é prejudicial: pintura padronizada para evitar o reconhecimento público das empresas de ônibus, acúmulo de função de motorista e cobrador, sobrecarga no trabalho dos rodoviários, diminuição de ônibus em circulação e encurtamento de trajetos, forçando a baldeação que causa desconforto entre os passageiros. Além de Lerner, o banqueiro e então prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, do Itaú, consolidou nacionalmente esse modelo de transporte coletivo, recentemente trabalhado pelo político carioca Eduardo Paes, representante dos interesses das ricas elites cariocas.

ELITES DOCENTES NAS UNIVERSIDADES, INCLUSIVE PÚBLICAS - As elites acadêmicas se tornaram herdeiras do modus operandi dos dois “institutos”, promovendo a hierarquização do saber e a discriminação do pensamento crítico, banido dos cursos de pós-graduação. Desde as atuações de tecnocratas como o economista Roberto Campos e o sociólogo e mais tarde presidente da República Fernando Henrique Cardoso, criou-se uma linha de abordagem marcada por uma estética de objetividade, com textos pretensamente imparciais que, dentro de um padrão monográfico de linguagem, tratam os fenômenos de forma meramente descritiva, sendo banido o senso crítico. Nesses ambientes acadêmicos é onde a herança do IPES-IBAD se torna tecnicamente mais explícita, apesar de alguns acadêmicos se proclamarem “de esquerda”.

“COMBATE AO PRECONCEITO” DA BREGALIZAÇÃO CULTURAL - Com o engajamento que lembra o IPES-IBAD, só que acrescido de uma retórica “provocativa” trazida pelo imaginário pós-tropicalista, a campanha que, sob o pretexto do “combate ao preconceito”, prometia trazer um “valor nobre” para a bregalização musical, tinha até uma estrutura de think tank. Essa estrutura contou com a atuação organizada de nomes como o historiador Paulo César de Araújo, o jornalista Pedro Alexandre Sanches - que, oriundo da Folha de São Paulo, tentou neutralizar os debates culturais da mídia esquerdista inserindo nela as mesmas abordagens do periódico da família Frias - e o antropólogo Hermano Vianna, atuando de forma articulada similar à dos fundadores dos dois “institutos”. A ideia é enfraquecer a evolução cultural das classes populares, minimizando os efeitos das políticas progressistas que o presidente Lula, diferente da dimensão neoliberal do terceiro mandato, implantada no Brasil. Na prática, porém, o “combate ao preconceito” só fez a bregalização cultural ampliar mercados para públics de maior poder aquisitivo, sob o suporte da grande mídia e o patrocínio de grandes empresas, da indústria de cerveja à indústria automobilística, lembrando os investimentos empresariais dos tempos do IPES-IBAD.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DREIFUSS, René. 1964: A Conquista do Estado. Petrópolis, Vozes, 1981.

FIGUEIREDO, Alexandre. Esses Intelectuais Pertinentes... Como a Retórica do "Combate ao Preconceito" da Bregalização Contribuiu para o Golpe Político de 2016. Niterói, Independente, sob publicação virtual no portal Amazon, 2020.


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