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O CULTURALISMO "POP" (OU BREGA) DOS TEMPOS DO INSTAGRAM

O JORNALISTA MUSICAL (E DE OUTRAS ESFERAS CULTURAIS) ADOTA UMA POSTURA COMPLACENTE À MEDIOCRIDADE REINANTE. Por Alexandre Figueiredo O chamado senso comum acha que o Brasil de hoje está num período culturalmente próspero, tido como o melhor de toda a História. Aparentemente, há espaços para várias expressões culturais, para vários estilos musicais, teatrais, literários etc, há várias vozes e várias narrativas em trânsito livre. Mas será mesmo que isso é verdade? Infelizmente, não. Embora seja fato que existam diferentes manifestações culturais, juntando diversos locais, diversas expressões, diversas épocas e referenciais de diversos países apreciados no Brasil, inclusive os referenciais culturais próprios, a questão dos espaços de expressão, que priorizam fenômenos comerciais e culturalmente medíocres, atestam para uma crise cultural e não para uma prosperidade. E por que muitos falam nessa prosperidade, que na prática não existe? Devemos observar duas linhas de percepção: uma é a ilus...

A GOURMETIZAÇÃO DA MEDIOCRIDADE MUSICAL DOS ANOS 1990

Por Alexandre Figueiredo Virou moda gourmetizar a mediocridade musical dos anos 1990. A música romântica piegas de Sullivan & Massadas agora é tida sob o pretenso rótulo de "MPB sofisticada". Leandro Lehart, do Art Popular, se autoproclama "artista alternativo". Raça Negra e Molejo viraram pretensos ícones cult . Também são tidos como "sofisticados" Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó. Embora a maioria dos ídolos musicais gourmetizados remeta ao início dos anos 1990 ou à segunda metade dos anos 1980, também há exemplos na segunda metade da década que hoje viraram pretensos ícones cult : Joelma, É O Tchan, até mesmo o inexpressivo Tchakabum. Entre os mais antigos, Gretchen, que iniciou carreira no final dos anos 1970, e Odair José, que se lançou na segunda metade dos anos 1960. E tem ainda Wando, o falecido ídolo brega também beneficiado pela pretensa "cultura vintage ". Por que, de repente, a bregalização musical passou a ser gourmetiz...

O 'MAINSTREAM' ENRUSTIDO DO BRASIL DA LACRAÇÃO

Por Alexandre Figueiredo Michael Sullivan, "MPB de vanguarda"? Gretchen, "ícone cult "? Leandro Lehart, "artista alternativo"? De repente, o crescimento extremo da música brega-popularesca nos últimos 50 anos, que atingiu níveis ainda maiores na medida em que o tempo passa, criou uma falsa impressão de que ela é a "música brasileira" por excelência e que, por isso, nomes veteranos se acham no direito de se autoproclamarem contrários ao comercialismo que os consagraram. É como quem cospe no prato em que comeu, e, no desespero de tentar voltar à carreira, apela para pretensões fora da realidade. Que as pessoas podem mudar, é verdade, mas não a ponto de considerarmos que a vida seja uma "casa da Mãe Joana" de supostos arrependidos ou de arrivistas que, sem se arrependerem do que fizeram, apenas mudaram suas estratégias e atitudes como quem troca de roupa. A gourmetização da cultura popularesca, que se deu desde a atuação da intelectualidad...

POR QUE É IMPOSSÍVEL DEFINIR O BREGA COMO VANGUARDA

WALDICK SORIANO, UM DOS PRINCIPAIS ÍDOLOS DA MÚSICA BREGA. Por Alexandre Figueiredo Prevalece em setores influentes da opinião pública a falácia de que a música brega representa a vanguarda cultural brasileira. Embora essa visão tenha produzido aparente consenso e seu discurso envolve argumentos que parecem verossímeis, essa tese não tem o menor sentido lógico, por mais que seus ideólogos persistam em fazer crer que sim. Em primeiro lugar, devemos analisar por que essa visão, que combina uma propaganda vitimista dos ídolos bregas, um senso etnocêntrico das elites intelectuais com a cultura popular e uma postura paternalista da burguesia pós-moderna em relação às classes populares. Não se trata de uma visão marcada por uma generosidade natural ao povo pobre. Não se trata de um arroubo progressista de consideração às classes trabalhadoras nem um achado perdido de algum tesouro folclórico pelos intelectuais urbanos das capitais. Trata-se, sim, de uma visão positivamente preconceituosa, po...

A "LIBERDADE" IDENTITARISTA E SEUS DONOS

Por Alexandre Figueiredo Atos como botar tatuagens no corpo, praticar a objetificação do corpo feminino - disfarçada pelo pretexto de um suposto feminismo popular - e até fumar cigarros são tidos como atos de "liberdade" para seus defensores. É uma estranha liberdade, por vezes autodestrutiva, por outras meramente convencional, por outras marcada por pressões sociais para parecer socialmente "diferente" aos olhos dos outros. Numa sociedade hipermercantilizada e hipermidiatizada como o Brasil, em que o poder midiático é tão grande que a quase totalidade da população tida como formadora ou consolidadora de opinião se submete aos mecanismos midiáticos, como as redes sociais, é evidente que essa "liberdade" não seja tão livre assim. Tanto que as pessoas que aderem a essas práticas reagem às críticas com certa arrogância e falam, quase pelo piloto automático: "Eu sou livre e faço o que quiser, sou dono (a) do meu nariz". Trata-se de um grande engano. ...

A FALSA VANGUARDA NOS QUINTAIS DO 'MAINSTREAM'

Por Alexandre Figueiredo Um fenômeno preocupante nos últimos tempos é que o mainstream  brasileiro, tomado de tendências popularescas ou simplesmente pop, passou a se impor, principalmente nas redes sociais, como uma pretensa vanguarda, através de um processo que envolve lacrações e falsas atribuições cult  a fenômenos de "massa". É como se, na indigência cultural predominante no Brasil, até mesmo o mainstream  mais rasteiro, no caso os ídolos brega-popularescos, tenha que se impor como alternativa a si mesmo, dentro de um contexto em que a Kuarup Discos torna-se complacente com ídolos brega-românticos e a cultura rock, no Rio de Janeiro, ter que apelar para a supremacia de uma emissora pop enrustida como a Rádio Cidade. Esse processo é uma retroalimentação do que já é massificado e convencional. Tenta-se usar o contexto das lacrações e repercussões de certos fenômenos, dentro do meio "independente" das mídias sociais, e essa agenda se recicla não só como um fenômen...

AS FRAUDES CONCEITUAIS DO "POPULAR DEMAIS" PELA INTELECTUALIDADE "BACANA"

BARÕES DA PISADINHA - A MAIS NOVA SENSAÇÃO DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA. Por Alexandre Figueiredo O sociólogo Jessé Souza define como "fraude conceitual" a ideia descontextualizada de patrimonialismo que o culturalismo conservador prega visando criar um maniqueísmo postiço entre um Estado "demonizado" e um Mercado "glorificado", conceito que inspirou a grande mídia a realizar sua campanha pelo golpe político de 2016 e pelos retrocessos consequentes desde então. Modos de abordagem à parte, é ingênuo afirmar que o culturalismo conservador se limita ao mito do patrimonialismo ou à pedagogia e sociologia familiares. Ou, quando se fala de alguma cultura artística, se limitar a mencionar o "capital cultural". Essas são apenas uma parte do culturalismo conservador, que se estende em áreas que, oficialmente, parecem "imaculadas" e "isentas" de qualquer jogo de interesses das elites do atraso. Essas áreas, onde se manifesta a "cult...