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POR QUE É IMPOSSÍVEL DEFINIR O BREGA COMO VANGUARDA

WALDICK SORIANO, UM DOS PRINCIPAIS ÍDOLOS DA MÚSICA BREGA. Por Alexandre Figueiredo Prevalece em setores influentes da opinião pública a falácia de que a música brega representa a vanguarda cultural brasileira. Embora essa visão tenha produzido aparente consenso e seu discurso envolve argumentos que parecem verossímeis, essa tese não tem o menor sentido lógico, por mais que seus ideólogos persistam em fazer crer que sim. Em primeiro lugar, devemos analisar por que essa visão, que combina uma propaganda vitimista dos ídolos bregas, um senso etnocêntrico das elites intelectuais com a cultura popular e uma postura paternalista da burguesia pós-moderna em relação às classes populares. Não se trata de uma visão marcada por uma generosidade natural ao povo pobre. Não se trata de um arroubo progressista de consideração às classes trabalhadoras nem um achado perdido de algum tesouro folclórico pelos intelectuais urbanos das capitais. Trata-se, sim, de uma visão positivamente preconceituosa, po...

A "LIBERDADE" IDENTITARISTA E SEUS DONOS

Por Alexandre Figueiredo Atos como botar tatuagens no corpo, praticar a objetificação do corpo feminino - disfarçada pelo pretexto de um suposto feminismo popular - e até fumar cigarros são tidos como atos de "liberdade" para seus defensores. É uma estranha liberdade, por vezes autodestrutiva, por outras meramente convencional, por outras marcada por pressões sociais para parecer socialmente "diferente" aos olhos dos outros. Numa sociedade hipermercantilizada e hipermidiatizada como o Brasil, em que o poder midiático é tão grande que a quase totalidade da população tida como formadora ou consolidadora de opinião se submete aos mecanismos midiáticos, como as redes sociais, é evidente que essa "liberdade" não seja tão livre assim. Tanto que as pessoas que aderem a essas práticas reagem às críticas com certa arrogância e falam, quase pelo piloto automático: "Eu sou livre e faço o que quiser, sou dono (a) do meu nariz". Trata-se de um grande engano. ...

A FALSA VANGUARDA NOS QUINTAIS DO 'MAINSTREAM'

Por Alexandre Figueiredo Um fenômeno preocupante nos últimos tempos é que o mainstream  brasileiro, tomado de tendências popularescas ou simplesmente pop, passou a se impor, principalmente nas redes sociais, como uma pretensa vanguarda, através de um processo que envolve lacrações e falsas atribuições cult  a fenômenos de "massa". É como se, na indigência cultural predominante no Brasil, até mesmo o mainstream  mais rasteiro, no caso os ídolos brega-popularescos, tenha que se impor como alternativa a si mesmo, dentro de um contexto em que a Kuarup Discos torna-se complacente com ídolos brega-românticos e a cultura rock, no Rio de Janeiro, ter que apelar para a supremacia de uma emissora pop enrustida como a Rádio Cidade. Esse processo é uma retroalimentação do que já é massificado e convencional. Tenta-se usar o contexto das lacrações e repercussões de certos fenômenos, dentro do meio "independente" das mídias sociais, e essa agenda se recicla não só como um fenômen...

AS FRAUDES CONCEITUAIS DO "POPULAR DEMAIS" PELA INTELECTUALIDADE "BACANA"

BARÕES DA PISADINHA - A MAIS NOVA SENSAÇÃO DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA. Por Alexandre Figueiredo O sociólogo Jessé Souza define como "fraude conceitual" a ideia descontextualizada de patrimonialismo que o culturalismo conservador prega visando criar um maniqueísmo postiço entre um Estado "demonizado" e um Mercado "glorificado", conceito que inspirou a grande mídia a realizar sua campanha pelo golpe político de 2016 e pelos retrocessos consequentes desde então. Modos de abordagem à parte, é ingênuo afirmar que o culturalismo conservador se limita ao mito do patrimonialismo ou à pedagogia e sociologia familiares. Ou, quando se fala de alguma cultura artística, se limitar a mencionar o "capital cultural". Essas são apenas uma parte do culturalismo conservador, que se estende em áreas que, oficialmente, parecem "imaculadas" e "isentas" de qualquer jogo de interesses das elites do atraso. Essas áreas, onde se manifesta a "cult...

O MEDO DE SE LER UM LIVRO COMO 'ESSES INTELECTUAIS PERTINENTES'

NOVA CAPA DO LIVRO, SUBSTITUINDO O CINZA, QUE SOAVA "PESADO", POR UM BEGE, QUE SOA MAIS "LEVE". Por Alexandre Figueiredo Evidentemente, esta postagem não vai falar sobre as pessoas que não se interessam em comprar Esses Intelectuais Pertinentes  por opção própria, porque têm outras prioridades. Fala-se daqueles que poderiam adquirir esse livro e não querem por medo, embora, supostamente, também justifiquem que possuam "outras prioridades" e "outros interesses". Precisamos discernir quem realmente não tem necessidade de ler um livro como este e quem precisa, mas não quer por medo. Afinal, tanto à direita quanto à esquerda, há desculpas esfarrapadas para as pessoas não adquirirem o livro, preferindo "coisas mais importantes" como livros para colorir, romances de jogos de Minecraft e estórias de cavaleiros medievais procurando o segredo da medalha de amendoim e do unicórnio cor-de-rosa. Na direita, temos argumentações toscas neste sentido:...

O CULTURALISMO CONSERVADOR QUE AS ESQUERDAS NÃO ENXERGAM

O CULTURALISMO CONSERVADOR SE VALE DO DISCURSO "CONTRA A CORRUPÇÃO", MAS ELE NÃO SE LIMITA SOMENTE A ISSO. Por Alexandre Figueiredo O culturalismo conservador descrito por Jessé Souza possui limites conceituais que não são falhos, porque o sociólogo que os analisa têm seus horizontes de abordagem que lhes são próprios e oportunos, conforme suas formações no âmbito do Conhecimento. Trata-se de narrativas que fizeram suas escolhas para, assim, trazer análises peculiares que trazem uma valiosa contribuição para nosso debate. Baseado no mito do "brasileiro cordial" e fundamentado em questionamentos das obras de Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro, dos dos principais ideólogos do culturalismo conservador vira-lata, Jessé Souza não iria falar de "bailes funk" nem de ídolos cafonas exaltando o "Brasil Grande", por estabelecer critérios que lhe são próprios, dentro do caminho analítico que escolheu. Isso não significa que estacionemos no campo ana...

BRASIL E A OBSESSÃO IMITADORA DA CULTURA ESTRANGEIRA

ANITTA - CANTORA INSPIRADA NOS PADRÕES DO POP ESTADUNIDENSE DOS ANOS 1990. Por Alexandre Figueiredo O Brasil vive um grande complexo de vira-lata há décadas, com maior intensidade desde que uma missão cultural desembarcou no país em 1942, a serviço da Política da Boa Vizinhança do projeto New Deal do então presidente estadunidense Franklin Roosevelt. Era uma maneira de evitar que o Brasil se tornasse aliado do nazi-fascismo, durante a Segunda Guerra Mundial, selando uma aliança que beneficia o país norte-americano e que continua valendo até hoje, com maior vantagem para os EUA. Antes disso, apenas as elites se comprometeram a adotar o barbarismo cultural através de influências importadas da Grã-Bretanha e da França e, a partir da chegada de outros povos para colonizar o Brasil, substituindo o trabalho escravo pelo trabalho assalariado, os italianos passaram também a se destacar nas influências introduzidas em nosso país. O complexo de vira-lata, termo popularizado pelo dramaturgo e jor...