Por Alexandre Figueiredo
Hoje nossa página, Ensaios Patrimoniais, completa 20 anos em um cenário cultural bastante complicado no Brasil, marcado por uma ordem social comprometida com a degradação da cultura popular visando interesses econômicos e políticos de controle social das massas sob a máscara do “fim do preconceito”.
No âmbito do patrimônio histórico, temos o problema de uma parcela burocrática dos servidores públicos, que tratam o tema patrimônio sem a consciência pública natural, sem o “amor à causa”, este substituído por uma fria, embora correta, subordinação à lei.
Isso é uma subordinação que não impede que interesses escusos permitissem desfigurar uma área histórica como o entorno do Farol da Barra, em Salvador, Bahia, para a construção de um prédio para atender aos interesses de um político do MDB, Geddel Vieira Lima.
A necessidade de proteção do patrimônio histórico também esbarrou no descaso, na falta de investimentos para manutenção e segurança, o que fez com que um curto-circuito causasse o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
É uma atitude de indiferença de uma parcela burocrática dos servidores patrimoniais que só fazem “o que é obrigado”, o que não deve ser confundido com os bons servidores que, quando não fazem, é por falta de condições e não de vontade.
Os maus servidores ficam tratando as pesquisas patrimoniais feitas para o inventário de bens culturais como se fossem um segredo de Estado, sem se atentarem que é saudável compartilhar esses estudos com a sociedade, vide o interesse público presente em todo bem cultural.
Esses servidores burocratas,uns chegando a fingir que nunca se faz inventário, cometem a ingratidão com seus serviços, pois eles são os primeiros a passar em concursos públicos, mas são também os que mais reclamam do trabalho, enquanto ficam no ócio sem ter o que fazer, pois o sei desempenho não é criativo, pois o tema patrimônio oferece um monte de tarefas interessantes a fazer.
Na cultura popular, ainda tivemos que aturar ações “paralelas” de promoção patrimonial que são desprovidas de caráter técnico, enquanto são dotadas do interesse politiqueiro mais escancaradamente cínico.
Em 2009, um ritual político na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) declarou o “funk”, um ritmo musical comercial, como “patrimônio cultural”, sem que fossem considerados critérios socioculturais relevantes, em que pese a persistente retórica, motivada mais pela emoção e usando a pobreza e a negritude como carteirada, de “cultura das periferias”.
Isso traz um grande problema, pois mostra que os fenômenos brega-popularescos querem usar o pretexto do “combate ao preconceito” - uma campanha culturalista que tem o mesmo peso persuasivo dos antigos “institutos” IPES-IBAD no âmbito político dos anos 1960 - para se venderem como “cultura de verdade”, comparável a vender um chiclete de bola como se fosse uma fruta da feira.
Como entender o nosso patrimônio cultural se o subjetivismo de muita gente, com sua mania de relativizar as coisas, acredita que o jabaculê popularesco de hoje será o folclore do futuro? Quantos interesses empresariais se mascaram diante da mediocrização cultural brasileira, que investe em saudosismos calculados nos escritórios empresariais? E que mentalidade subserviente é essa que, no Brasil, nomes como Paulo Freire e Carolina Maria de Jesus só são tendenciosamente apreciados por quem nem tem ideia de que obra eles fizeram?
E o que dizer da aversão que intelectuais burgueses descolados - a intelectualidade "bacana" - tem em relação à Bossa Nova, o desprezo intelectual ao Clube da Esquina, as apropriações levianamente tendenciosas do legado de Belchior e Novos Baianos e a adoção do discurso tropicalista para defender a bregalização que promove uma imagem depreciativa do povo pobre?
São posturas vindas de gente que se diz "culta" mas que adota um perfil perversamente elitista, apesar da falsa generosidade e do pretenso combate ao preconceito que exercem nos debates culturais. E o cinismo se torna tão descaraterizado que o comercialismo popularesco é atribuído de forma errônea às vivências e emoções do povo pobre, quando tudo isso é produzido por muito esquema de mídia, de mercado e de marketing, que de tão enganoso tenta renegar esses mesmos protestos que ocorrem.
Torna-se complicado um país como este, que ainda teima em promover o protagonismo mundial e a entrada no Primeiro Mundo com essa precariedade cultural, com essa idiotização que contamina as redes sociais e promove um surto de Síndrome de Dunning-Kruger, que é a manifestação de um complexo de superioridade em que os menos esclarecidos se acham "mais sábios" que os que procuram se esclarecer melhor das coisas.
Ao longo desses vinte anos, procuramos mostrar uma seleção de matérias relevantes ligadas ao patrimônio cultural e assuntos sobre cultura que servem para um debate amplo, mostrando o quanto o Brasil precisa se evoluir muito para ser, ao menos, um país minimamente digno.
Esta página, que prefiro não definir exatamente como um blogue, procura mostrar os problemas culturais brasileiros e um livro está sendo preparado com os melhores textos. Ensaios Patrimoniais segue sua trajetória, e agradecemos ao apoio dos leitores ao longo dessas duas décadas. Abraços a todos.
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