O "FUNK" É PRODUTO DE UM SISTEMA DE VALORES DESENVOLVIDO PELA FARIA LIMA DESDE O PERÍODO DA DITADURA MILITAR.
Por Alexandre Figueiredo
Uma atitude que chama muito a atenção é o comportamento de empresários e produtores de entretenimento no Brasil que, quando assimilam todos os aspectos de um fenômeno pop em moda nos EUA e conseguem imitar com perfeição, posam de “inventores” e tentam fazer a opinião pública crer que “descobriram algo genial”.
Grupos como Sublimes - clone do EnVogue cujo nome faz trocadilho com Supremes - , Maurício Manieri, promovido como um "genérico" brasileiro de Rick Astley, e Rouge, genérico das Spice Girls, são sintomáticos. Sempre que surge um grupo imitando o pop estrangeiro, a propaganda tenta vender como algo “inovador”, o que soa bastante equivocado e oportunista.
O atraso cultural brasileiro permite situações inusitadas como a “redescoberta”, em 2004, do “Verão do Amor” da música eletrônica feita por DJs. Enquanto o Brasil presenciava a aparente ascensão deste gênero, a Grã-Bretanha discutia a crise desse mesmo estilo, reclamando que os DJs, no Reino Unido, não faziam mais coisas relevantes e tocavam para plateias quase vazias.
Vivemos também a degradação da cultura popular através da bregalização. A cultura popular ficou privatizada e, entre ritmos com forte acento americanizado, como o “pagode romântico”, o “sertanejo” e o “funk”, outros ritmos se desenvolvem como pastiches de ritmos regionais, como a sofrência e o piseiro, que tentam “captar” os climas locais de seus Estados.
São músicas que não passam de um mero acompanhamento para o consumo de cerveja, mas que formaram um monopólio na produção musical brasileira de tal forma que regiões se tornam redutos de cada ritmo popularesco vigente. O interior de Goiás tem o “sertanejo” e seu derivado, a sofrência (que chegou a ter o nome oportunista e farsante de “sertanejo universitário”), a Baixada Fluminense tem o “funk” e o “pagode romântico”, Salvador tem a axé-music e o “pagodão baiano” e por aí vai.
A renovação da MPB está sufocada e os espaços cada vez mais são restritos. Enquanto isso, o comercialismo enrustido da bregalização musical se sustenta por um poderoso lobby de jornalistas, acadêmicos e produtores de TV, que promovem uma sustentabilidade expositiva dos ídolos popularescos que poderiam durar apenas seis meses e são tranalhados para durar vinte anos e até mais.
MAIS RESERVA DE MERCADO PARA OS POPULARESCOS
A campanha do “combate ao preconceito” foi um processo ocorrido na mídia e nos meios acadêmicos com maior intensidade entre 2000 e 2016, embora haja vestígios antes, como a defesa do antropólogo baiano Milton Moura do “pagodão”, já nos anos 1990, e nas defesas constantes do “funk” até hoje.
Com uma articulação que lembra a ação política do antigo complexo IPES-IBAD em 1964, o “combate ao preconceito” usou o pretexto da “verdadeira cultura popular” para ampliar e consolidar os mercados da música popularesca em todo o Brasil. Novas reservas de mercado atingiram os públicos de classes mais abastadas, incluindo setores heterodoxos da burguesia.
Sob o comando de um empresariado com representantes do setor de entretenimento na Faria Lima, a elite empresarial de São Paulo, a bregalização cultural fez um desenho do Brasil que mais parece uma caricatura, com as classes populares sujeitas ao poder midiático, tanto regional, nacional e estrangeiro.
O viralatismo cultural tornou-se um processo tão sutil que oficialmente ele se limita a um pequeno recorte que pouco tem de cultural, restrito a agendas políticas reacionárias ou a posturas sociopatas em atrações de entretenimento. Mas a bregalização, marcada pela mediocridade musical e comportamental, reflete esse viralatismo cultural disfarçado de orgulho de ser brasileiro, e o discurso “contra o preconceito” se revelou mais preconceituoso ainda.
É um Brasil com mais consumo e menos cidadania, com mais liberdade e menos dignidade, na qual as classes populares são convidadas a viver uma vida de parque de diversões, sem o humanismo real que se torna apenas uma mera fachada discursiva.
EMPRESARIADO FORTALECIDO
Embora as narrativas dominantes falem dos fenômenos popularescos, das subcelebridades e do processo de bregalização cultural como um acontecimento espontâneo, marcado pela liberdade e pelo prazer, nota-se um caráter de mediocridade reinante.
São apenas fenômenos comerciais, que seguem a estranha atitude de brincar de ser famoso, mas sem trazer valores sociais relevantes. Tudo parece se voltar para a festa, o hedonismo desenfreado, as frivolidades.
A “sociedade do espetáculo”, mencionada por intelectuais europeus como Guy Debord, não é mencionada nos casos brasileiros, pois a narrativa oficial tenta fazer crer que tudo se torna fluente e puro como se o Brasil fosse um paraíso. E a elite que mais se interessa por esse processo, a burguesia ilustrada, se esforça para se impor como modelo de sociedade para o mundo.
A mediocridade musical e comportamental, no entanto, sinalizam um viralatismo cultural explícito, manifesto até nas expressões em inglês inseridas no vocabulário coloquial, como boy, body,love, bike, sem falar da até agora nunca traduzida bullying (da qual proponho o termo “valentonismo”). Até “derivados” como “boy lixo”, “bodyzinho”, “lovezinho” e outros foram criados.
E tem modismos que não medem escrúpulos para requentar coisas datadas, seja para relançar ídolos popularescos como Michael Sullivan e Chitãozinho & Xororó (estes com a versão de "Evidências", do ídolo brega José Augusto), seja para lançar como "novidade" o já falecido ídolo Michael Jackson ou difundir a versão de Johnny Rivers para "Do You Wanna Dance" que só é superestimada no Brasil, em detrimento dos EUA, quando a mesma música, de autoria de Bobby Freeman, foi consagrada pela banda californiana Beach Boys.
Isso expressa o poder do empresariado da Faria Lima, que desde 1974 faz o design sociocultural que persiste até hoje e que acostumou tão mal as pessoas que hoje tudo parece natural e espontâneo. Mas tudo deixa claro ser fruto de uma grande, engenhosa e bem elaborada estratégia de manipulação, para garantir a paz social necessária para movimentar o consumo, o entretenimento anestesiante e, assim, a riqueza abusiva dos empresários.
O viralatismo cultural enrustido se baseia em mascarar o verdadeiro processo, reduzindo o termo, também conhecido como culturalismo viralata, a um fenômeno meramente político, no sentido institucional do termo. Adoto até o termo “Jornalismo da OTAN” para definir essa abordagem, usando o termo “guerras culturais” como um eufemismo para guerras no âmbito político e institucional, para camuflar a verdadeira guerra cultural que ocorre no Brasil, voltada ao âmbito do entretenimento.
O comportamento americanizado do brasileiro médio, com arremedos de cultura pop trabalhados desde o começo da bregalização, reflete esse viralatismo cultural enrustido, agora visto como “a cara do Brasil” marcada por alguns álibis: o pretenso esquerdismo estatal e nacionalista de uma parcela da população e a própria presença de Donald Trump no comando dos EUA, que faz com que o viralatismo seja visto como “impossível” diante do vínculo simbólico com um governante reacionário.
Mas, na prática, o Brasil se encontra num cenário cultural devastador. Apenas temos uma elite de pretensos esclarecidos se achando “donos da verdade”. A burguesia ilustrada apenas exalta um país que uma parcela da sociedade pode consumir muito dinheiro e, só por consumir muita mídia, acha também que sabe de todas as coisas. Mas não sabe. O problema é discutir com esta elite pedante. O viralatismo não quer se assumir como tal, pensando ser um tesouro cultural contemporâneo do nosso país.
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