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ERROS DA INTELECTUALIDADE CULTURAL ABREM CAMINHO PARA PENSAMENTO CONSERVADOR

EXERCÍCIOS ESCOLARES ATRIBUEM MEROS ÍDOLOS POPULARESCOS A "PENSADORES CONTEMPORÂNEOS".

Por Alexandre Figueiredo

A atual geração de intelectuais da cultura brasileira, por bem denominada de "bacana" por adotar um aparente apelo pop ou popularesco para obter visibilidade, cometeu erros de posturas e procedimentos que mais comprometem do que beneficiam a defesa do nosso rico patrimônio cultural.

Tendo se ascendido ainda no auge do governo Fernando Henrique Cardoso, dentro de uma perspectiva que mistura heranças ideológicas do "milagre brasileiro" e uma abordagem da indústria cultural influenciada pelo Tropicalismo, mas adaptada a formas mais anódinas de debate cultural, a intelectualidade cultural brasileira de hoje nada trouxe de acréscimo para o progresso cultural.

Trata-se de uma numerosa geração da qual se destacam o historiador Paulo César Araújo, o antropólogo Hermano Vianna, o jornalista Pedro Alexandre Sanches e o advogado Ronaldo Lemos, mas inclui tantos outros, entre celebridades, cientistas sociais, jornalistas culturais, cineastas etc, que adotam uma retórica contraditória sobre a cultura popular brasileira.

Sem adotar uma visão que se contraponha ao status quo do comercialismo popularesco, que é respaldado por emissoras de rádio e TV controladas por grupos oligárquicos, essa geração de intelectuais prefere reafirmar os valores, símbolos e personagens desse cenário marcado pelo comercialismo e pelo marketing e adotar um discurso supostamente etnográfico e militante.

Vendo na polêmica e na provocação como fins em si mesmos, esses intelectuais se apoiavam, primordialmente, na retórica da "ruptura do preconceito" e levavam às últimas consequências toda uma retórica que transformava meros sucessos comerciais em fenômenos "etnográficos" e sub-celebridades em "militantes".

SÍNTESE DE TODO UM DISCURSO

Durante dez anos, sobretudo a partir de 2003 - quando o chamado discurso pró-bregalização passou a ser utilizado em larga escala na mídia e nos meios acadêmicos - , prevaleceu essa visão de que a "ruptura do preconceito" atribuída à cultura popular se dava através da aceitação, por mais pré-concebida que fosse, dos chamados "sucessos populares", seja na música ou além dela.

O discurso adotava um método sofisticado, em que até mesmo monografias universitárias de pós-graduação e documentários cinematográficos eram feitos para reafirmar o status quo brega-popularesco. O objetivo é fazer com que esses fenômenos comerciais sejam vistos como "cultura séria" e ampliem mercado para públicos de maior poder aquisitivo e, em tese, melhor instrução.

São monografias, documentários, reportagens, artigos, entre outros produtos textuais, que definem os sucessos popularescos como sendo "o novo folclore brasileiro", criando uma perspectiva que no entanto apresenta problemas na sua retórica, já que ela é feita lançando mão de contradições e omissões.

Uma delas é creditar o comercialismo ao autenticamente popular, um discurso em que tenta traduzir o sentido da influência midiática e mercadológica como se ela já fosse própria da realidade das classes populares. Em outras palavras, é como se o rádio e TV fossem vistos como meras expressões da vontade popular, o que faz omitir as relações de poder existentes entre mídia e povo.

Com isso, os intelectuais fazem vista grossa, no seu discurso engenhoso, a fatores como a influência do poder midiático no gosto popular, seja da parte de empresários do entretenimento, que chegam a ser proprietários de muitos "artistas", seja dos próprios donos de rádio e TV "populares" que integram oligarquias de caráter nacional ou regional.

Em vez disso, os intelectuais, mantendo tais omissões, sem poder afirmar nem desmentir, preferem usar um mesmo padrão do discurso, se limitando a creditar a chamada "hegemonia do mau gosto" como uma "causa nobre" e converter, tendenciosamente, o sentido dos sucessos comerciais-populares em supostos processos de ativismo sócio-cultural e mesmo político-cultural.

"MAU GOSTO" COMO PRETENSO ATIVISMO

Essas omissões envolvem sobretudo a contradição, que se nota sobretudo em textos de Pedro Alexandre Sanches, mas também em intelectuais regionais como o baiano Milton Moura, da Universidade Federal da Bahia, de superestimar os aspectos comportamentais do "mau gosto", que pouco afetam os interesses de poder dominante.

Essa superestima consiste em promover uma mera inquietação comportamental do "mau gosto" popularesco como se fosse alguma "subversão de ordem política". Ou seja, o malabarismo discursivo da atual geração de intelectuais converte aspectos que, no fundo, são bastante inócuos, em fenômenos supostamente ameaçadores ao poder dominante, discurso feito não sem incorrer a erros.

Afinal, nesse discurso, funqueiras que só dizem baixarias pornográficas, por exemplo, são tratadas como se fossem "feministas". No discurso pró-brega em geral, generais da ditadura e socialites ganham o mesmo peso retórico negativo, e a inquietação comportamental relativa é tratada (ou seria confundida?) com um "perigoso" ativismo revolucionário.

Exemplos disso foram os exercícios escolares que certos professores, de maneira tendenciosa, fizeram, citando ídolos popularescos como Valesca Popozuda e Márcio Victor (da banda baiana Psirico), como se fossem "grandes pensadores contemporâneos". Num processo um tanto jocoso, ídolos inócuos da "cultura de massa" acabam sendo tratados como se fossem "ativistas sociais".

Isso transforma meros fenômenos de entretenimento em pretensos fenômenos ativistas. E faz com que o discurso de suposta inquietação desse a falsa impressão de que o poder midiático, as oligarquias e a alta sociedade estão "apavorados" com os supostos "sucessos populares" que frequentam o cardápio de rádios, TVs e outros veículos de entretenimento "popular".

DISCURSO ETNOCÊNTRICO

O discurso desses intelectuais foi marcado por um aparente populismo generoso, um tanto positivista e que procurava soar progressista e eminentemente popular. Mas a retórica, quando observada com cautela, revela preconceitos de cunho elitista, típicos das abordagens etnocêntricas.

Primeiro, porque os intelectuais dessa corrente favorável à bregalização cultural apostam numa visão estereotipada das classes populares. Tentam creditar a ela uma visão "autêntica", uma "verdadeira cultura popular" que todavia corresponde a uma visão trabalhada pelo poder midiático, ou seja, uma imagem já construída fora da realidade das classes populares.

Durante tempos prevaleceu essa visão, tanto dentro do cenário do poder midiático, como a televisão aberta e as emissoras FM que são controladas por oligarquias regionais. O contexto do poder passa sob vista grossa pelos intelectuais, que veem o sentido do "popular" de maneira quantitativa. Se as plateias lotam com facilidade, logo é "verdadeiramente popular".

É neste sentido que se baseiam os erros que a intelectualidade cultural dominante comete, que acaba demonstrando uma convicção elitista, uma visão que, embora no discurso tente se confundir com os interesses próprios das classes populares, seu sentido real envolve um paternalismo não assumido, mas dotado de um preconceito elitista evidente.

FALTA DE DISCERNIMENTO

A ideologia do brega envolve pessoas pobres estereotipadas, que expressam um comportamento que, basicamente, mistura ingenuidade com o grotesco. É um comportamento ao mesmo tempo caricato e inofensivo, constituído de formas de domesticação das classes populares que acabam promovendo a apologia da pobreza e da ignorância.

Só isso deixa cair o verniz da retórica dita progressista desses intelectuais. Isso porque o discurso deles não apresenta discernimento a respeito do rico patrimônio sócio-cultural registrado em nossa História e a atual "cultura de massa" difundida por rádios, TVs e imprensa sob o rótulo de "popular".

A "cultura de massa" dita "popular", ou seja, o brega-popularesco, consiste tão somente em promover fenômenos de consumo e visibilidade, sem acrescentar conhecimentos, valores e princípios sócio-culturais. Os ídolos são alimentados pelo marketing, e não bastasse isso são perpetuados na fama apoiados pelo discurso dos intelectuais simpatizantes.

Estes tentam, na sua retórica habilidosa, passar longe desses questionamentos, como se nada tivesse ocorrido na degradação sócio-cultural. Ignoram os mecanismos de controle do poder midiático sobre as classes populares pela indústria brega-popularesca e tentam afirmar que a bregalização cultural é "a cultura popular em estado puro", "sem intermediários".

Mas a "pureza" só existe no discurso. Na prática, é "purismo", uma vez que os intelectuais se satisfazem, até com ênfase, com a expressão estereotipada das classes populares, em que os elementos de degradação sócio-cultural, como a ignorância, a mediocridade artística e a ausência de valores morais edificantes é aceita sob o pretexto da "pura inocência do povo pobre das periferias".

Esse purismo traz um elemento oculto no discurso intelectual. É a defesa dessa elite, que se esforça para dar uma impressão de que "se mistura ao povo", que esconde uma visão elitista para a qual o povo pobre só é bom quando ignorante, ingênuo e grotesco.

Para esses intelectuais, o povo pobre só é bonito quando se comporta tolamente num programa de auditório, rebola, interpreta canções de gosto muito duvidoso e mal consegue dar uma opinião consistente e firme sobre a realidade política.

O discurso positivo cria um simulacro de postura progressista, mas esconde uma posição oposta, ainda mais cruel, que é a de condenar a verdadeira emancipação popular, através da cultura de qualidade, do ativismo político autêntico, uma condenação silenciosa, dissimulada com a noção de que tais processos só são possíveis com o patrocínio da intelectualidade especializada.

Além disso, a hipótese de "emancipação social", no discurso intelectual dominante, só é admitida sem romper com os laços de breguice, apenas adestrando os ídolos da bregalização sócio-cultural, não apenas musical, num processo de "evolução" ao mesmo tempo tendencioso, inócuo e medíocre.

A REAÇÃO CONSERVADORA

O discurso da intelectualidade cultural dominante, que aposta na bregalização da cultura brasileira, começa a ceder terreno para a reação conservadora, criando uma situação insólita entre uma intelectualidade que se diz progressista  que não zela pela cultura popular e uma outra, conservadora, que se encoraja a contestar a mediocrização cultural.

É a partir desse contexto que pessoas que se comprometem com um moralismo punitivo, como Rachel Sheherazade, jornalista da rede de televisão SBT, e com um pensamento econômico privatista, como o jornalista de Veja, Rodrigo Constantino, se favorecem às custas do populismo festivo dos intelectuais que defendem a bregalização.

Embora não estejam identificados a um compromisso de zelar pelo patrimônio cultural brasileiro, tais intelectuais se valem pelo discurso negativo, que se contrapõe ao discurso positivo dos ideólogos da bregalização.

Se, por exemplo, Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo ocultam suas visões elitistas sobre as classes populares com um discurso positivo em prol da estereotipação do "popular", Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade ocultam seu desprezo às classes populares com um discurso negativo que tão somente rejeita a mediocrização sócio-cultural da bregalização.

Uns e outros não exercem um compromisso sério com a nossa cultura. As classes populares se limitam à visão alternada de "bons selvagens" grotescos mas ingênuos e da "ralé" imbecilizada pelo poder midiático. A visão deturpada do povo pobre é sempre a mesma, apenas uns a veem de forma positiva e outros de maneira negativa. Mas as classes populares acabam sempre perdendo com isso.

FONTES: Carta Capital, Mingau de Aço, Veja On Line.

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