Pular para o conteúdo principal

ANTIGO MUSEU DO ÍNDIO E A BRIGA JUDICIAL ENTRE GOVERNO E ÍNDIOS

SOLIDÁRIO COM OS MOVIMENTOS SOCIAIS, O CARTUNISTA CARLOS LATUFF FEZ ESTE DESENHO EM PROTESTO CONTRA O ARBÍTRIO DAS AUTORIDADES CARIOCAS.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos problemas causados pelo grupo político do governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, e do prefeito de sua capital, Eduardo Paes, é o desrespeito às leis e ao interesse público na hora de fazer prevalecer seus projetos políticos.

Apegados a um modelo de urbanismo ao mesmo tempo surreal e sensacionalista, Paes e Cabral Filho se baseiam numa interpretação pedante e oportunista das caraterísticas urbanas de Barcelona, cidade espanhola da qual se inspiram para estabelecer uma paisagem de mercado para o município do Rio de Janeiro.

Essa concepção um tanto equivocada já causou vários problemas, como o desprezo ao patrimônio histórico carioca que causou vários desastres no centro carioca. Houve até mesmo um princípio de incêndio na Biblioteca Nacional, que felizmente foi controlado a tempo de não comprometer sua estrutura.

A falta de fiscalização e orientação adequadas fez com que houvesse uma trágica explosão em um restaurante na Praça Tiradentes e o desabamento de um edifício próximo à Cinelândia, ambos com mortes. O primeiro, por estoque irregular de gás de cozinha, o segundo por obras que afetaram a estrutura do prédio.

Desta vez, Paes e Cabral Filho decidiram demolir o edifício do antigo Museu do Índio, desativado desde 1979. Ignorando o parecer do Conselho de Patrimônio do município, os dois decidiram pela divulgação de um despacho no Diário Oficial autorizando as obras de demolição do local e anunciando até a responsável pelas obras, a Copec Construções e Locações, designada a demolir o prédio no prazo de um mês.

No entanto, o Ministério Público Federal lançou um recurso na Justiça Federal para impedir a realização das obras. No local do antigo Museu do Índio, vivem 23 tribos indígenas, que se mobilizam para permanecer no local onde ocupam desde 2006, com o objetivo de recuperar o museu.

A medida de Paes, respaldada por Cabral Filho, contraria o parecer do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, que por unanimidade de seus membros, decidiu que o antigo Museu do Índio está impedido de ser demolido, por ser um prédio de reconhecido valor histórico.

Embora Paes possa ser autorizado a acatar ou não o parecer do conselho, este parecer se baseia em um decreto de 2001, para o qual atribui a decisão do Conselho de Patrimônio sobre a demolição ou não de edifícios construídos no Rio de Janeiro antes de 1937.

Sem esperar qualquer decisão final da Justiça, o governador Cabral Filho ordenou, no último sábado, uma ação policial de despejo dos índios e outros ocupantes do local, causando um confronto que durou nove horas. Sem conseguir despejar os índios, os policiais se retiraram por volta de 19:30, no começo da noite.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro, através da pessoa do defensor André Ordacgy, já havia impedido a execução da demolição, através de uma ação liminar, em dezembro passado. Ele entrou hoje com uma outra ação na Justiça Federal para impedir a demolição, e pretende também entrar com uma representação na Comissão Internacional de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A representação na OEA tem por objetivo pedir para que a organização avalie a situação e possa realizar uma intervenção, evitando que, com o despejo e a demolição, as tribos indígenas sejam deixadas à própria sorte, sem um lugar para viverem.

Segundo a ação do MPF, o IPHAN também contesta a decisão dos governantes municipal e estadual. O arquiteto Carlos Fernando de Andrade, ex-superintendente do instituto no Rio, embora admita que a preservação do patrimônio histórico nem sempre garante recursos para preservá-lo, admite que o antigo Museu do Índio possui significativo valor histórico.

EQUÍVOCO - O governador Sérgio Cabral Filho quer construir, no local, além da ampliação da saída de torcedores do Estádio Mário Filho, o Maracanã, um estacionamento e um centro de compras no entorno do antigo museu.

Numa atitude equivocada, Cabral Filho afirmou que as obras obedecem as exigências da Fifa para a urbanização de cidades e modernização dos estádios esportivos. No entanto, a Fifa já havia enviado um comunicado dizendo que a preservação do terreno do antigo Museu do Índio está de acordo com as suas exigências, negando ter autorizado a demolição.

Até mesmo o orçamento das obras de demolição e construção das novas obras foi feito, assim como a licitação para a empresa realizadora das obras. O orçamento está estimado em R$ 586 mil e as obras estão previstas para serem realizadas antes da Copa das Confederações.


Já os indígenas pretendem criar, no local, um centro de memória e cultura indígena chamado Aldeia Maracanã. Aliás, a palavra Maracanã é de origem indígena, sendo uma expressão tupi-guarani que significa "semelhante a um chocalho". É também o nome dado a um tipo de papagaio.

Ironicamente, um dos ídolos mais populares do futebol brasileiro, o jogador Neymar, é de ascendência indígena. E, para um evento como a Copa do Mundo, destinado a valorizar o Brasil, é um péssimo exemplo de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho contra os primeiros ocupantes do nosso país, numa atitude de total respeito à democracia, ao patrimônio histórico e até mesmo à legitimidade das leis.

FONTES: Portal G1, Portal R7, Suderj.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

IPHAN TOMBA CENTRO HISTÓRICO DE JOÃO PESSOA

Por Alexandre Figueiredo No dia 05 de agosto de 2008, o Centro Histórico da cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, passa a ser considerado patrimônio histórico. Uma cerimônia realizada na Câmara Municipal de João Pessoa celebrou a homologação do tombamento. No evento, estava presente o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Luiz Fernando de Almeida, representando não somente a instituição mas também o ministro interino da Cultura, Juca Ferreira, ausente na ocasião. Luiz Fernando recebeu dos parlamentares municipais o título de "Cidadão Pessoense", em homenagem à dedicação dada ao Centro Histórico da capital paraibana. Depois do evento, o presidente do IPHAN visitou várias áreas da cidade, como o próprio local tombado, além do Conjunto Franciscano, o Convento Santo Antônio e a Estação Cabo Branco, esta última um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer que foi inaugurado no mês passado. Luiz Fernando de Almeida participou também da abertura da Fei...

A POLÊMICA DA HISTÓRIA DAS MENTALIDADES

Por Alexandre Figueiredo Recentemente, a mídia lançou mão da história das mentalidades para legitimar tendências e ídolos musicais de gosto bastante duvidoso. O "funk carioca", o pagode baiano, o forró-brega, o breganejo e outros fenômenos comerciais da música feita no Brasil sempre lançam mão de dados biográficos, de sentimentos, hábitos pessoais dos envolvidos, chegando ao ponto da ostentação da vida pessoal. Também são mostradas platéias, e se faz uma pretensa história sociológica de seus fãs. Fala-se até em "rituais" e as letras de duplo sentido - na maioria das vezes encomendada por executivos de gravadoras ou pelos empresários dos ídolos em questão - são atribuídas a uma suposta expressão da iniciação sexual dos jovens. Com essa exploração das mentalidades de ídolos duvidosos, cujo grande êxito na venda de discos, execução de rádios e apresentações lotadas é simétrico à qualidade musical, parece que a História das Mentalidades, que tomou conta da abordagem his...

JUSTIÇA SUSPENDE OBRA EM ÁREA DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO DE SALVADOR

Por Alexandre Figueiredo A 1ª Vara de Justiça Federal, acatando ação movida pelo Ministério Público Federal e pelo IPHAN, suspendeu as obras de construção de um edifício em área da antiga Mansão Wildberger, considerada ilegal por desobedecer à Portaria n° 10, de 10 de setembro de 1986. A portaria prevê, em seu artigo 2, que "as obras e atividades a serem realizadas em bem tombado pelo Poder Público Federal ou nas áreas de seus respectivos entornos, que estejam sujeitas a licenciamento municipal, deverão ser precedidas de aprovação da SPHAN (atual IPHAN)". O encaminhamento do caso à Justiça Federal se deu com base no artigo 109, parágrafo I, da Constituição Federal, e da Súmula N° 150, do Superior Tribunal de Justiça. Em dezembro passado, a Procuradoria da República expediu recomendação à SUCOM (Superintendência de Uso e Controle da Ocupação do Solo do Município), à SEPLAM (Secretaria de Planejamento Municipal) de Salvador e à Procuradoria Geral do Município para não expedirem...